sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Crepuscular

Ha no ambiente um murmúrio de queixume,
De desejos d’amor, d’ais comprimidos…
Uma ternura esparsa de balidos
Sente-se esmorecer como um perfume.

As madres-silvas murcham nos silvados
E o aroma que exhalam pelo espaço
Tem deliquios de goso e de cansaço,
Nervosos, femininos, delicados.

Sentem-se spasmos, agonias d’ave,
Inaprehenciveis, mínimas, serenas…

Tenho entre as mãos as tuas mãos pequenas,
O meu olhar no teu olhar suave.

As tuas mãos tão brancas d’anemia,
Os teus olhos tão meigos de tristeza…
É este enlanguecer da natureza,
Este vago soffrer do fim do dia.


Camilo Pessanha

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