terça-feira, 23 de setembro de 2008
Lavorare Stanca, Cesare Pavese
Atravessar uma rua para fugir de casa
só um rapaz o faz, mas este homem que vagueia
todo o dia pelas ruas já não é um rapaz
e não foge de casa.
Há no Verão
tardes em que até as praças ficam vazias, estendidas
ao sol que vai pôr-se, e este homem que chega
por uma avenida de árvores inúteis pára.
Vale a pena ser-se só, para se estar cada vez mais sozinho?
Percorrê-las apenas - as praças e as ruas
estão vazias.
Havia que parar uma mulher
e falar-lhe e convencê-la a viverem juntos.
Doutro modo fala-se sozinho. É por isso que às vezes
vem abordar-nos o bêbado nocturno
e conta os projectos de toda a vida.
Não é certamente ficando à espera na praça deserta
que se encontra alguém, mas quem anda pelas ruas
de vez em quando pára.
Se fossem dois,mesmo a andar pelas ruas, a casa seria
onde está essa mulher e valeria a pena.
De noite a praça volta a ficar deserta
e este homem que passa não vê as casas
entre as luzes inúteis, já não levanta os olhos:
sente apenas o empedrado, que outros homens fizeram
com mãos calejadas, como são as suas.
Não é justo ficar na praça deserta.
Anda certamente na rua aquela mulher
que, rogada, havia de querer dar uma mão à casa.
(...)
Liberdade
sexta-feira, 19 de setembro de 2008
Dia de Festa
quinta-feira, 18 de setembro de 2008
A Lesma

Passeava-se na sua nocturna indolência solitária, tendo no seu visco, salgado e lustroso, a esperança única da atracção. Mas a sua condição de hermafrodita, ilusão mortífera de auto-suficiência, tornava estéril qualquer encontro. Devaneio de Andrógino… solidão e debilidade. Invejava os outros semelhantes que, menos frágeis, carregavam laboriosamente a sua concha-lar, na certeza de um refúgio. Interrogava-se sobre o engodo adaptativo que levou a sua casa. Há quanto tempo ficou entregue à vulnerabilidade? Há quanto tempo o seu nome servia os de espírito lânguido?
Esta noite acordei para beber um copo de leite. Na travessia até à cozinha encontrei uma lesma que se passeava nos mosaicos, estrelas geométricas, da minha sala. Impelida pelo incómodo que este real cheio de aranhiços, mosquitos, abelhas e outros seres me impõe, opus-me à lesma e apressei-me a livrar-me da sua presença. Na intenção tinha apenas pôr no norte da sua trajectória o meu quintal, mas esquecida da sua vulnerabilidade – ausência de lar, ausência de escudo –, esmaguei a indolente.
A insónia resolveu ficar comigo, tal como os pensamentos acerca das lesmas humanas que vamos tendendo a esmagar com o esquecimento.
Da lentidão alentejana sempre retirámos bom uso para uma ou outra piadola que vai satisfazendo as nossas necessidades humorísticas. E a lentidão que os faz esquecidos é a força do povo que aqui vou descobrindo, tão próximos e tão distantes que estão da indolente estraçalhada. O tempo sem horas faz a proximidade, a concha da terra faz a distância. Esmagados pela omnipotência citadina, é o cuidar do lar que abate a solidão. Há sempre um vizinho a caiar uma parede, uma casa a ser varrida, uma cortina a ser remendada e há sempre tempo para se ir estando.
- Então, a menina é Professora?
- Não, sou picóloga…
- Ahhh…(silêncio)… então, e vem dar aulas a que ano?
Lá fui percebendo que, para a polis esquecida no tempo, pela impossibilidade de competição com a velocidade omnipotente da capital, ser professor é a via quase única dos estudiosos e dos audazes que deixaram a terra para sonhos mais-além. E assim, apesar de ninguém saber o que faz uma psicóloga, sabem que eu venho desse sítio importante que é a cidade e, como tal, também eu devo ser importante e, por isso, tratam-me pelo que de mais importante conhecem… E, para todos, sou a Professora que veio de Lisboa (os professores do país que se aventurem pela planície que a desvalorização da classe aqui não se faz sentir).
Já vou sendo conhecida aqui na terra e, aqui na terra, já construí uma rotina. E todos os dias de manhã saio de casa e vou encontrando rostos vizinhos…
Então, Professora, está a gostar?
Tem saudades da família?
Dormiu bem, Professora? Olhe que as noites estão a ficar mais frias…
Já consegue falar ao telefone, Professora?
Tem comido bem? Se quiser pode cá jantar c’a gente…
Bom dia, Professora. Hoje está um dia bonito. Não tarda temos aí a época da sementeira…
E, assim, vão cuidando de mim, fazendo da terra um lar. Do lar que a realidade agora me oferece ao lar que carrego dentro de mim, vou sabendo que apesar de sozinha nunca me acho só. E, ainda que bebendo do vagar da lesma, sei-me menos frágil.
No trabalho vou relatando os meus desastres culinários, o que fez com que a Sílvia, minha colega, me trouxesse, cuidadosamente embalado, um jantar especialmente preparado para mim. E, por isso, hoje o meu lar é animado pelo fervilhante aroma das ervilhas com ovos escalfados, mas ainda mais pelo carinho da Sílvia.
Espíritos lânguidos? Ainda não descobri nenhum. E eu, por cá, mais lenta, mas menos adormecida… avivada que ando pelo afecto vizinho.
Para a próxima, a lesma já não me incomodará…
quarta-feira, 17 de setembro de 2008
sábado, 13 de setembro de 2008
Aventura Matinal
Pois bem, entro na Pastelaria Tina, cabelo molhado, óculos de sol e o portátil debaixo do braço e descubro que a clientela da Pasteleria Tina, pelo menos a esta hora, é exclusivamente constituída por membros do sexo masculino.
O meu andar, compasso binário, foi acompanhado por um silêncio dilacerante, por sua vez acompanhado por um movimento quase robótico de umas cabecinhas masculinas programadas para me seguir...
"Bom dia, queria um café e dinheiro trocado para comprar cigarros!"
O silêncio tornou-se tão espesso, tão denso, tão compacto que quase se ouvia... Assim foi o silêncio-resposta ao meu pedido. Apesar de não ter tido resposta outra que não o silêncio, o café lá chegou, tal como o dinheiro trocado.
A compra dos cigarros impunha ter de contornar a mesa dos cinco robots e ficar encurralada, ali mesmo, entre o engenho fornecedor de nicotina embalada e a falta de engenho dos cinco robots. E lá fui eu, decidida a enfrentar este teatro provinciano que me trouxe Paula Rego à memória.
Contornei a mesa, as cabecinhas-robots seguiam-me, e nem um movimento para me facilitar a operação. Aliás, a petrificação dos robots apenas facilitou aquele roçar de corpos momentâneo, muito apreciado pela comunidade masculina.
Transfigurada pela sensação de agrilhoamento que um momento como este causa, fiz um olhar de Górgona Medusa e grunhi um irado BOM DIA! Deu-se um qualquer curto-circuito e os robots, olhares caídos, cabeças caídas, pareceram ficar para sempre desprogramados.
Ser mulher na província... E viva a Paula Rego!!
sexta-feira, 12 de setembro de 2008
Ontem à noite fiz panquecas-da-saudade...

Um nunca baste de sal suado,
Massa incorpórea, consistente,
As panquecas são amor fermentado.
Receita insolente, ousada,
Do céu faz ingrediente.
E grita quando silenciada,
Receita calada, gemente.
Com mel, doce seio dourado,
Mais fogo, corpo cobre queimado.
As panquecas são um segredo errante,
Quando eu, aqui, distante...
quinta-feira, 11 de setembro de 2008
A noite
E por falar em bizarro, umas horas mais tarde, o grunhido visceral do torpedo combinou-se com a saga onírica dos caçadores de rins e, mesmo no momento em que os caçadores laboriosamente me abriam as costelas, o torpedo agitou-se... Imaginem o resultado!
Enfim, juro que não andei a ver o CSI, nem a ler o TAL e QUAL, ainda que o desespero pela falta de notícias me tenha levado a ponderar recorrer às formas mais sinistras da comunicação. O outro dizia que é urgente o amor, eu estou um pouco menos idealista e parece-me que urgente, mesmo urgente, era eu ter uma televisão. Pois é, provavelmente desconheciam esta lacuna... que é agravada pelo facto de a minha ligação à Internet cair de 7 em 7 minutos, tornando deveras irritante a leitura de qualque texto que tenha mais de três parágrafos...
Depois dos caçadores de rins voltei a adormecer para logo acordar com uma fome sem igual... ainda pensei em refrear o desejo por umas torradinhas e um leitinho quente, mas logo de seguida lembrei que uma das vantagens da vida independente é não ter horários e lá fui eu, olhos semi-cerrados, preparar uma ceia bem tardia. A torradeira da minha casa não funciona!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
quarta-feira, 10 de setembro de 2008
Mas nem tudo é novo...
Já perdi a conta aos dias...
O resultado do meu fim-de-semana, para além da canseira evidente, foi a nova decoração da minha nova casa.
Aqui ficam alguns Tesourinhos o Ante e Depois para diversão dos interessados...
sexta-feira, 5 de setembro de 2008
Dia 4
quinta-feira, 4 de setembro de 2008
Dia 3
Dos vulcões aos magmas da saudade... Adormeci a ouvir o mestre Bob Dylan – só interrompido pelo torpedo refrigerador. Deixo-vos algumas letras.
... Para bom entendedor, meia palavra basta...
(reflexos do meu processo de aculturação)
"Simple Twist Of Fate"





















