domingo, 30 de novembro de 2008

A Fronteira do Amanhecer



Não é a primeira vez que sou assolada pelo Garrel - pelo Louis, não pelo Phillip, ainda que eles não sejam de todo indissociáveis, mas o que interessa é o que em Garrel não se indissocia em mim (aborrecido juntar sempre um Eu à receita, mas que outro filtro?!)...

Da aurora do que aos meus olhos se oferecia à aurora a que o meu coração se abria, parece que foi o desalinho quem lavrou a terra de fronteiras-sem-distâncias. Eu que fujo ao desalinho - ignorante embirrância que insiste -, ali encontrei uma verdade. O relógio em desalinho, o cabelo em desalinho, o andar em desalinho, as longas mãos em desalinho, as palavras (des)alinhadas...

Desencontrei-me de Garrel frequentemente, embora saiba em mim que caminhámos encontrados...
Eu e o Garrel... Desalinhados... Os que choram de mais e os que não choram de todo...

Não quero ser alinhada, Garrel... mas, se não quero, porque persisto? Quero o alinho e o desalinho - ou a distância que separa a treva e a alba ou a fonteira que as une. Nos teus olhos, posso ser mais eu. Quando os meus olhos se encontram nos teus todo o desalinho se alinha.

Vem morar no meu país de musgo, Garrel. Sem ti, o meu país é só distância.












sexta-feira, 28 de novembro de 2008

O Fantástico Mundo Psi e outras estórias

Desengane-se o que acredita que Psicólogo passa a vida a construir fabulações sobre a vida alheia...
* * *
O Psicólogo é um inquebrantável estudioso da alma humana...
Assim o prova a qualidade dos nosso encontros científicos...
* * *
Claro que o rigor do nosso pensamento científico impõe uma demanda de laboriosa investigação de campo... devidamente documentada...
* * *

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Já sou Mestrinha

Andei meses a fio a queixar-me do Mestrado...


"Ah, não me apetece! Ah, isto é enfadonho! Ah, não consigo escrever! Ah, não tenho ideia nenhuma que se aproveite! Ah, não consigo olhar para os quadros da Paula Rego! Ah, não consigo passar um dia sem revisitar os quadros da Paula Rego! Ah, agora já entreguei a primeira versão! Ah, agora a primeira versão não está boa! Ah, agora tenho de fazer uma segunda versão! Ah, estou tão farta disto! Ah, já entreguei a segunda versão! Ah, eu só escrevo merda! Ah, agora estou a fazer uma terceira versão! Ah, a minha orientadora já disse que já chega de versões! Ah, estou angustiada! Ah, estou a ficar obsessiva! Ah, falta-me o bocadinho da obsessividade necessária ao espírito científico! Ah, odeio a ciência! Ah, não sei o ando a fazer! Ah, falta um papel para entregar nos Serviços Académicos! Ah, falta mais outro! Ah, falta mais um exemplar da tese! Ah, o júri já foi convocado! Ah, afinal fiquei sem júri! Ah, já tenho júri outra vez! Ah, falta um exemplar da tese em formato digital! Ah, a data da defesa já foi marcada! Ah, tenho de faltar ao trabalho! Ah, não me lembro de nada do que escrevi! Ah, sou tão burra! Ah, não vou conseguir defender isto! Ah, não consigo parar de roer as unhas! Ah, ando a falar sozinha pela rua! Ah, não consigo dormir! Ahhhhhh, não quero ninguém a assistir à minha defesa! Ah, é véspera da defesa e agora quero lá toda a gente! Ahhhhhhh..."


Chega o fatídico dia, encontro os amigos no Antigo Ferrador, o meu pequeno coração em crise vai acalmando... devagar, devagarinho... Vou para a Sala de Actos preparar tudo. Não encontro o botão para ligar o computador, o computador pede uma password qualquer, ligo para o contínuo, o rabugento responde-me que a password está escrita no ecrã do computador, ecsrevo a password, o computador tem uma configuração qualquer..., sei lá, não percebo nada dessas coisas!, a apresentação estã transfigurada, porra!, não consigo ligar o projector, dá-me uma repentina necessidade de ir à casa de banho, ligo ao contínuo outra vez, extensão 7002, - "Preciso de ajuda, Homem! ", "Já vou!", "Mas a defesa começa daqui a 15 minutos!", "Está bem..." -, lá chega o homem sem pressas, - "Mas... está nervosa porquê? Eles nem leram o seu trabalho..." -, lanço o meu olhar fulminante, o homem sem pressas lá se cala e liga-me todos aqueles aparelhos esquisitos... Está tudo pronto, menos eu! Chegam dois elementos do júri, beijinho aqui, beijoca acolá, lá se acomodam, júri e acompanhantes, naquela sala de cortinas de veludo vermelho. Mas falta um elemento do júri! 'Tou lixada! O tempo passa lentamente, eu ando de um lado para o outro, a minha orientadora pergunta-me se eu não me quero sentar, não, não quero, quero andar, andar, andar e esquecer o tempo. E o raio do homem que não aparece! Olho para os meus amigos para me tranquilizar, mas eles parecem tão aflitos quanto eu, olho para a minha orientadora - "Bem , esperamos mais um bocadinho!" -, uma eternidade passada e lá chega o famigerado. Mais uma beijoca! Ok, está na hora. Os salamaleques habituais e depois tudo se evaporou. Daquela sala só me lembro dos rostos do Daniel e do Nuno. Durante 20 minutos, nada mais. Lá me sentei naquele banquinho isolado no fundo da sala, com os três grandes mestres de olhos postos em mim, como quem espera uma sentença! Peguei numa garrafa de água, bebia toda - "E agora se preciso de ir à casa de banho?!". As minhas fantasias sobre o que me pode atrapalhar incluem sempre uma urgente e inesperada ida à casa de banho, eu que por norma só uso as instalações sanitárias de manhã e à noite (Ideia a reter: Devia beber mais água!; Ideia maluca: Não é por acaso que usei a palavra reter!). Lá começa o tal que é famigerado, o segundo homem sem pressas do meu dia em roda-viva, bla bla bla (Este bla bla bla devia ser Bla Bla Bla, uma vez que diz que o senhor é famigerado por alguma razão. É um senhor maiúsculo, podíamos dizer. E é mesmo!). Lá levei a temida tareia! Agora a minha vez... bla bla bla! Next! Lá vem mais um famigerado que até sabia os nomes dos quadros da Paula Rego de cor. Bla Bla Bla e eu respondo bla bla bla. Mas até que gosto bastante de responder. Por momentos esqueço-me que estou a defender qualquer coisa e parece que estou somente a conversar. Parabéns e tal e agora vais para a rua que é p'rá gente deliberar. Deliberações depois... Iupi! Já sou mestrinha!! Mais leve, mas mais carregada de coisas boas - disse-me alguém! Dei um abraço à minha orientadora - "Será o último?" -, pensando em tudo o que lhe queria dizer e não conseguia. Só sei que, com ela, fui mais livre - tudo o resto que poderia dizer é só meu! Comprei-lhe um presente que ficou esquecido no carro. Nestes dias fico sempre alienada do mundo concreto, perdida que ando na minha azáfama interna. Quem vê diz que não se nota, que pareço muito segura. Puta que pariu! Ainda bem que não dizemos tudo o que nos passa pela cabeça!
* * *
E é tempo de festa! Vamos todos para o Antigo - mas sempre - Ferrador! Meses sem ver aquelas cadeiras e aquelas mesas, depois de anos a vê-las todos os dias! Vamos beber umas jolas! Só uma porque ainda tenho de rumar ao Além Texas! Não quero voltar ao Além Texas, quero ficar para sempre em Lisboa e não ter de me despedir. Mas lá volto à planície. Passo por Sargacinho a pensar na minha Paula Rego encerrada... Qual encerrada?! Afinal, também não me quero despedir. Vou a ouvir uma música - "I feel your racing heart, my liquid silver arms extented, these waves aren't far apart, black gold in clawfoot tubs unchanging, I am fire, where's my form? (...)" -, depois esqueço a música. É sempre assim com esta música, só ouço esta parte e depois viajo e depois volto a ouvir outra vez - "If what they say is truth, you are a shadow in 4th dimension (...)" - e depois volto a viajar. E só sei estas duas partes! Chego ao trabalho! Já sou mestrinha e tal! Beijinhos e mais beijinhos. Afinal até é bom estar cá. Hoje é dia de Feira do Livro na Escolinha. Lá vou eu e não me querendo despedir definitivamente da Paula Rego, compro uma antologia de contos populares portugueses. Leio um dos ilustrados pela Paula Rego e penso que hei-de fazer alguma coisa com este conto.
* * *
Agora que já não tenho mestrado parece que me falta qualquer coisa...

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

O Taxista

Na grande confusão
deste medo
deste não querer saber
na falta de coragem de
me perder me afundar
perto de ti tão longe
tão nu
tão evidente
tão pobre como tu
oh diz-me quem sou eu
quem és tu?

António Ramos Rosa


Na espiral crepuscular, preso ao leme ditado pela vontade dos seus clientes, o Taxista transportava esses anónimos – como ele – que, sem rumo, lhe exigiam um destino. Tinha por hábito, ou compulsão, interpor o espelho retrovisor entre si e os outros. Nada havia entre os estranhos senão aquele obrigatório encontro sôfrego e vago. No cruzar especular, entre o falso arriar – inibições impostas que procuravam esconder o jugo ao desejo de reconhecimento –, o reflexo engolido demandava uma re(in)trovisão… diz-me quem sou eu, quem és tu?


A Mulher, cabelos ruivos, longos cachos de bacante, não usava sapatos de salto alto. Entrou sem boca… não sem voz.

… Tic-Tac, Tic- Tac… O compasso do taxímetro…

O Taxista dirigiu o seu olhar ao espelho. Não indagava destinos. Entre os tormentos que lhe assomavam o espírito sobre os pêlos que teimavam em transbordar a área do seu nariz e a curiosidade sobre uma ruga no canto da boca que desafiava a tendência sempre sisuda do seu semblante, como se fosse seu costume sorrir aos clientes, encontrou a Mulher. Vestia uma simplória camisa branca. Ainda que denunciasse uma tentativa de primorosa engomaria, o colarinho da branca camisa da jovem Mulher confessava um amarrotar só comparável ao rosto de uma esquecida velha de aldeia. A camisa estava toda abotoada. Havia uma tentativa de alinho. Não usava anéis, as orelhas despidas, o colarinho apertado não dava espaço a nenhum adereço… mas os seus cabelos, laranja-ardente de bacante, eram dignos de uma tiara. Não usava saltos altos, movia-se silenciosa. Nem um rasto de cores artificiais na sua pele. Também não usava saia. Umas calças de um axadrezado cinzento cobriam-lhe as pequenas pernas e subiam-lhe pela cintura, apertadas. Depois da Mulher, encontrou o olhar…

“Diz-me, Homem do Leme, há um abismo sem ponte, vertigem que suga?… E eu no cume, e eu no cume. Nos entretantos de não-sei-quê sou este candor hesitante, pêndulo sem tempo… Ora rumo a um futuro, ora herdeira do sal de Sodoma e Gomorra… Sou o pêndulo do teu taxímetro. Paga-se caro este duvidoso arrastar…”


… Tic-Tac, Tic- Tac…

“Serei as cores das quentes vinhas da terra ou o vinho que serve o deleite dos embriagados? Serei o despojar deste deserto ou a avidez que ruidosa grita uma verdade-solidão? Serei a esperança límpida da água que rega e que se demora no florescer ou a desistente quietude que quer, mas não se pode deixar morrer? Serei o sorriso apaixonado, encantamento pueril, ou o sorriso engodo, sobrevivência-fuzil? Serei o verde vibrante ou a tristeza saudosa do olhar?”

… Tic-Tac, Tic-Tac…

“Sou a dúvida entre o querer erguer-me e o querer perder-me, entre o meu olhar e o reflexo do teu, sou a vontade do absoluto, o aborto da incerteza. Não sei em que rua me devo descer… nessa das casas imaculadas, das benévolas mártires maternais, com nomes de escritores importantes ou de heróis viris, ou nessa rua sem nome, nesse lote B-2ºFrente, nesse anonimato… sem nome, mais animal…”

Findo o diálogo sem boca, ela desceu. O destino era a sua espiral crepuscular. O do Taxista também. Continuou ao leme. Novamente só, demorou-se na observação dos pêlos do seu nariz, pouco habituado que estava a demorar-se nos seus olhos.

* * *

Acendeu um cigarro. Gostava de ver reflectido no espelho o fumo que lhe saía da boca e se dividia na passagem do seu nariz. Gostava também da sensação de névoa que lhe deixava no olhar. A cegueira arde, pensava às vezes… ele, que tudo via através do seu espelho. Encostou na espiral, a pedido do Velho. O Velho entrou, a muito custo, tal não era a quase paralisia de uma das suas pernas. O Taxista não o olhou, continuando a degustar o seu cigarro e as assombrosas formas desenhadas pelo fumo. O Velho olhou para o espelho. Nada encontrou. Grunhiu, então, como fazemos para negar a nossa falta de existência, “Leve-me até à Rua 23!”. O Taxista arrancou sem passar pelo espelho retrovisor… Era o Velho… Fazia-lhe lembrar a sua ruga no canto da boca. Assim prosseguiu a viagem, entregue à cegueira que já não era a da névoa do seu cigarro. Despejou o Velho e com ele o fantasma da sua mortalidade.

Continuou na espiral crepuscular e acendeu mais um cigarro.


* * *

Sai o Palhaço inversivo, levando consigo um reflexo do espelho. Crente na ponte de esperanto – desce nessa rua dos amantes (des)iguais – são iguais o aquém e o além se te não conheceres em ninguém... E, da profundidade adquirida, deixa esquecido, como parte de si, o revólver florejante. Caminha para casa – não ter casa é de onde foi – e encontra o leito aquecido pelo aroma verde que reconhece.

No Táxi, entra o Homem de Negócios. Na mão esquerda carrega um ramo de flores exuberante, na mão direita a pasta dos homens importantes. Nos olhos irríguos, um tormento. Fato obssessivamente apertado, gravata impecavelmente vertical. Tudo naquele cinzento dos homens que se querem esconder. Só o ramo indiciava um desígnio exibicionista. Deu-se o encontro re(in)trovisor...

“Tenho a pasta vazia. Tenho a pasta vazia. Tenho a pasta vazia. Tenho a pasta vazia. Tenho a pasta vazia. Tenho a pasta vazia. Tenho a pasta vazia e a mão cheia de um ramo mendaz.”

… Tic-Tac, Tic- Tac…

“Tenho a pasta vazia. Tenho a pasta vazia... a pasta vazia... a pasta vazia... vazia...”

… Tic-Tac, Tic- Tac…

O Taxista reconheceu um menear. Do desencontro do espelho, ao encontro do cilindro homicida – passeio irreflectido –, o Homem de Negócios fixado no revólver. O Taxista dividido entre a espiral crepuscular e o Homem de Negócios.

O Homem de Negócios larga a pasta. Agarra a promessa honrosa e dispara. Saltam as duas flores esquecidas pelo palhaço, homocromas ao seu perscrutável bouquet – um assassínio e uma ressurreição. No conflito inculpável do seu jardim, pede para ser descido na casa da luz vermelha e das cortinas cerradas. Desce e, com a porta ainda aberta, grita para o Taxista:

“SOU O HOLOGRAMA DE AGAMÉMNON! COM A MÃO ESQUERDA A MATO, COM A MÃO DIREITA ME IMPEÇO. NA MINHA INDELÉVEL PASTA ME CARREGO. FECHADA, TROFÉU DA MINHA INDECOROSA OMNIPOTÊNCIA. ABERTA, MAUSOLÉU DO IRRÍGUO OLHAR, VAZIO DO REINADO PARADOXAL. SOU O HOLOGRAMA DE AGAMÉMNON! REI DOS REIS, DOS CONSÓRCIOS CRIMINAIS...”

Deixou a alma largada e fechou a porta do Táxi. O Taxista parou na espiral crepuscular. Saiu do Táxi. Acendeu um cigarro, como sempre fazia. Queria livrar-se das almas alheias esquecidas. Ao abrir a porta das almas passageiras para agarrar a pasta vazia, encontrou no troço alcatroado duas fotografias caídas, atrás dos sorrisos, os nomes de Ifigénia e Electra. Foi esta a alma que precisou de largar – pensou.


* * *

Ainda de cigarro pendente nos lábios entreabertos, mais cinza que cigarro, o Taxista voltou a entrar e continuou no mapa das suas rugas. A cinza caía-lhe sobre as calças e sobre as mãos. Era quente e ele gostava, apesar da poeirenta confusão que se espalhava. Lembrou-se do Eraserhead.

Um Polícia acenou-lhe. Abrandou e, entre a confusão da cinza, procurava na confusão os papéis que esperava na demanda da farda que se lhe oferecia. Que procuras Homem do Leme? – peguntou o Polícia. Carta de Condução, Livrete, Seguro, o Número que me identifica... – o olhar amedrontado. Só quero que me leves... – respondeu langoroso. Deleita-te no assento passageiro... – retribuiu, benemerente, o Taxista.

O Polícia entrou e aconchegou-se a um canto, como sempre fazem os passageiros que fogem do centro onde a re(in)trovisão é mais recta – excepto o Palhaço, o audaz. Aconchegou-se e acendeu um cigarro. No Taxista ateou-se a sensorialidade odorante. Voltou ao espelho onde encontrou a orla nebulosa do cigarro autoritário. Este Táxi é de não fumadores! – respingou o Taxista. Mas se bem vejo o teu cigarro vai ardendo... – disse o Polícia apagando o cigarro, enquanto o Taxista continuava com a sua quase terminada impertinência.

… Tic-Tac, Tic- Tac…

“Despido da minha farda, quem é este que vive a persecutória exigência da regra? Tão nu, tão evidente, mais pobre do que tu... Canalhas como tu. Na minha farda, só canalhas. Restos imortais desses cuja morte quero inflingir. Odeio-os! Mafiosos, ladrões, putas e rufiões, preguiçosos, pobres, mendigos, mentirosos, drogados e pernetas, aberrações da rua, travecas, meninos putrefactos, cãezinhos abandonados, arrumadores de carros, bêbados, velhinhas cheias de sacos. Enjaulá-los todos! Com a minha farda passar multas, pôr algemas, espreitar as putas sem ter problemas e a seguir... ENJAULÁ-LOS! Leis e Números! Para eles, apenas Leis e Números. Nem pão, nem água, nem ESPELHOS!”

… Tic-Tac, Tic- Tac…

“Aqui, sem farda, agrilhoado. Prisioneiro do meu ódio impedido de acção. Prisioneiro à tua regra de proprietário arrogante. O teu cigarro ardente, o meu apagado. Sempre preso ao meu ódio-regra. Eu, o prisioneiro, o sem casa, sem abrigo, o ignorante do calor das coxas, o ladrão dos meus sonhos, o homem nu, em decomposição... Amanhã, ACORDAR E ENJAULÁ-LOS A TODOS!”

O Taxista parou em frente à Esquadra. O Polícia desceu... E, sem saber porquê, chorou. O Taxista também.

* * *

TÁXI! Entram a Mãe e a Filha. Pareciam não ter idade. Indistintas. Cabelos negros, lisos, linearmente cortados pelos ombros, franja escorrida até às sobrancelhas. O olhos ainda lacrimejantes do Taxista iluminaram-se com a juventude da Filha adolescente. Olhou para ela pelo retrovisor. Ela correspondeu, sorriu. A Mãe, observante, abotoou-lhe o casaco, alisou-lhe a franja até esconder o olhar e deu-lhe um pequeno toque na nuca que a fez curvar o rosto no sentido da gravidade. Enfrentou, então, o Taxista.


… Tic-Tac, Tic- Tac…

“Taxista dos Bolorentos Desejos que Leme guias no olhar que diriges à minha menina? Porque lhe roubas a meninice? Hei-de fechá-la. Fechá-la dentro da minha perpétua. Eu, para sempre menina, sem desejos.”

… Tic-Tac, Tic- Tac…

“Taxista dos Desejos, porque não te iluminas no meu olhar?”

Desceram as duas, de mão dada. A Filha arriscou olhar para trás. Frente-a-frente com o olhar do Taxista, encolheu os ombros e sorriu... À custa de uma bofetada.

* * *

Na espiral crepuscular já ia demorada a escuridão. Surpreso, o Taxista encontrou o Menino. Não terá mais de 8 anos... Tão só... – pensou. Abrandou. Queres que te leve? O Taxista nunca intervinha, só aguardava as chamadas... O Menino entrou decidido e perguntou - Como te chamas?

Que dizes, rapaz? O Taxista, difuso, procurou o espelho retrovisor, procurou o olhar do Menino, mas no dele só encontrou o seu. Perdeu-se. Fixou-se nos seus próprios olhos.

“De que cor são? De que cor são?”

O Menino interrompeu-o - Como te chamas?

“Que nome é o meu? Que nome é o meu? Travessuras da memória, que nome é o meu? Que me perguntas, rapaz? Que queres de mim?”

O Taxista já só podia olhar o seu próprio reflexo. Conhecia as rugas, os pêlos do nariz, o farto bigode com restos de cinza, conhecia a testa curtida e já calva onde ainda deveria estar preenchida, conhecia as espessas sobrancelhas, os cabelos brancos que lhe salpicavam as patilhas. Conhecia o escuro sinal no centro do rosto, a barba rasteira de que ontem se esquecera. Só não conhecia o seu olhar, habituado que andava em se perder no olhar dos outros. Conhecia a densidade humana e, agora, era um menino, o pequeno Menino, o seu menino de olhos sem nome, que o forçava a ver. Perdido nos seus olhos sem nome e sem cor, imiscuiu-se na espiral crepuscular. O Tic-Tac vagaroso que agora ouvia era o do seu coração titubeante, o calor que sentia já não era o da cinza do cigarro ardente, mas o sangue que se derramava escondendo-lhe a precipitada lividez do rosto.

Azul... Intermitência... Azul... Intermitência... Azul... Intermitência... Azul... Intermitência

Chegada a panóplia de odores esterilizados, o Taxista reconheceu algures o rosto da Sua Mulher. Meu túmido candor de astro, diz-me, que nome é o meu? Que nome é o meu? A Sua Mulher, no apático pavor da perda, contou-lhe a história de Tirésias.


Tic-Tac Tic-Tac Tic-Tac Tic-Tac Tic-Tac Tic-Tac Tic-Tac Tic-Tac! A bomba retomou.

Verdes! São verdes os olhos do cego profeta. Eduardo, dos excindidos passageiros.
E o Menino?
– perguntou.
Sobreviveu?

...Qual menino?...

* * *

Leve-me Taxista do Ocaso
à Mulher deslavada
da camisa branca,
à sua túmida, pelo sal,
candura astral...
ShugO

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

As Paredes de Sousel

Gosto de vir trabalhar mais cedo porque ainda não se esgotou o silêncio no frenesim do "é preciso fazer isto e aquilo", nunca se conseguindo fazer efectivamente nada, mas gosto especialmente de vir trabalhar mais cedo para poder olhar com demora pela janela do meu Gabinete de onde se vislumbra uma parede que tem pintado o seguinte:

"É favor não encostar à parede porque pode cair!"

No meu Taxi entrou a Paula Rego

De meninas gigante - pequenas demais - e mãoes aglutinadoras se faz a Paula Rego que em mim vive - cada árvore é um ser para ser em nós...
Na próxima Terça-Feira vou defender o meu Mestrado com a estranhamente bela sensação - Freud lá sabia o que dizia quando escreveu a Inquietante Estranheza - de que o que defendo é passado... Não só o passado dos últimos anos a pensar na Paula Rego, mas o passado daquela tarde de Fevereiro em que uma mulher - Elsa Penalva -, tão marcante como as de Paula Rego, me ofereceu as portas do CCB como a entrada para dentro de mim. Tinha 15 anos e até hoje nunca mais deixei de olhar a Paula Rego. Por vezes ternura, comprensão, outras vezes vómito grotesco - dos meus demónios? -, a Paula Rego caminha na minha espiral crepuscular...

Curioso que ontem, enquanto fingia trabalhar aqui na Escola, tinha os olhos líricos postos na Paula Rego... Fui apanhada... E a seguir a um olhar curioso sobre o que eu estaria a fazer seguiram-se muitos outros. As expressões de asco eram dignas daquela conservação fotográfica que tão raramente acontece. Mais curioso ainda é que os primeiros visitantes, com ataques asquerosos, foram homens. Todos eles repugnados, todos eles dizendo que a Paula Rego só pinta "trapalhadas" e eu ali, no meu observatório silente. Até que chegou uma mulher, uma curiosa observadora, e disse "É Paula Rego, não é? Adoro..." e tudo em mim se acalmou... Diferença não é falta... é só diferença...

A propósito da Paula Rego e da blogosfera a que agora gosto de me dedicar, apesar da minha anterior e fortíssima resistência, parecida à que eu sentia pelos fumadores até começar a fumar... Perdi-me... Ah! Paula Rego e Blogosfera! Enquanto lia um blog que ainda não consta na minha lista, mas que há-de constar, no qual uma leitora atenta divagava sobre as aventuras de Jane Eyre, pensei que realmente também eu, tal como a leitora, nunca tinha dado uma existência a Bertha, mas que Paula Rego o tinha conseguido. Li Jane Eyre, uma oferta amorosa, depois de muito ler a Paula Rego... Paula Rego deu-lhe uma densidade mais violenta e profunda do que aquela que eu podia ler nas palavras de Brontë... Jane sempre me pareceu uma mártire da dignidade, cujas desventuras se assemelhavam a repetidos castigos pela ousadia do seu desejo. E Bertha, a louca, parecia este abismo na realização dos desejos de Jane. Mas Bertha era só isso, até para mim que tenho um certo fascínio pelos loucos, uma louca encurralada que por azar dos que se procuravam desejantes teimava em exisitir... mas parece que a louca também desejava...
Da minha ignorância cultural ao blog da Rita da Rua da Abadia descobri que há uma livro que dá vida a Bertha - Wide Sargasso Sea de Jean Rhys - obra que também serviu de pano de fundo às fantasias de Paula Rego. E eu sempre a interrogar-me onde ficaria esse Wide Sargasso Sea... E no caminho de Sousel para Lisboa atravessa-se no meu caminho uma terra chamada Sargacinho e sempre me interrogo se é lá que se esconde esse Wide Sea... As coisas que uma pessoa pensa... Mas parece que não, parece que é no livro de Jean Rhys...

Aqui fica o recado para alguém que não saiba o que me oferecer neste Natal...

... E aqui vos deixo a Jane Eyre e Companhia pelas mãos mestras de Paula Rego...









A voz de Paula Rego

Paula Rego at Work

Interrompi a Viagem do Taxista para Adverbiar

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Entre le murs



De que turma?...
Domingo… convencionado pousio, remanso…
Amor-Cão, Amor-Cão…
Na ribeira vital, desassossego, inquietação…
De que turma? De que turma?

* * *

Este Domingo fui ao cinema. Na grande sala escura, projectava-se uma outra sala cheia de escuridões… uma qualquer turma francesa. Gostei… da honestidade periclitante dos humanóides. Cada um no seu confuso interior, confundindo os seus confusos exteriores.

À saída, encontrei a Lídia. Uma colega aqui da terra. Neste encontro - limite rasgado, confusão, entre o estar e o ser - vislumbrei uma ponte.



Os Amigos

VERTIGEM


I

Detenho-me no declive vertiginoso da escarpa,
é uma vertigem,
uma força que me impele a sobreviver
no lapso final do instante.


Ao longe, na idade da velhice,
falam-me de paraísos,
dizem que os astros brindam
ao triunfo laborioso do amor.


Sempre exististe em mim,
e eu ainda não te descobri,
ou descobri-te no fulcro da fatídica cegueira.
(...)


João Paulo Ribeiro

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Dizem por aí que vim com um Homem que percebe de palavras...

Cheguei a Sousel bem acompanhada... Dizem por aí que vim com um Homem que percebe de palavras... Esta semana estou casada com o António Ramos Rosa...

Não posso adiar o amor para outro século

Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob as montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas


Não posso adiar este braço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio


Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação


Não posso adiar o coração.


António Ramos Rosa

Nós Somos

Como uma pequena lâmpada subsiste
e marcha no vento, nestes dias,
na vereda das noites, sob as pálpebras do tempo.
Caminhamos, um país sussurra,
dificilmente nas calçadas, nos quartos,
um país puro existe, homens escuros,
uma sede que arfa, uma cor que desponta no muro,
uma terra existe nesta terra,
nós somos, existimos.


Como uma pequena gota às vezes no vazio,
como alguém só no mar, caminhando esquecidos,
na miséria dos dias, nos degraus desconjuntados,
subsiste uma palavra, uma sílaba de vento,
uma pálida lâmpada ao fundo do corredor,
uma frescura de nada, nos cabelos nos olhos,
uma voz num portal e a manhã é de sol,
nós somos, existimos.


Uma pequena ponte, uma lâmpada, um punho,
uma carta que segue, um bom dia que chega,
hoje, amanhã, ainda, a vida continua,
no silêncio, nas ruas, nos quartos, dia a dia,
nas mãos que se dão, nos punhos torturados,
nas frontes que persistem,
nós somos,
existimos.


António Ramos Rosa

Poema dum Funcionário Cansado

A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só


Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço?


Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música


São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo numa só noite comprida
num quarto só


António Ramos Rosa

Grito Claro

De escadas insubmissas
de fechaduras alerta
de chaves submersas
e roucos subterrâneos
onde a esperança enlouqueceu
de notas dissonantes
num grito de loucura
de toda a matéria escura
sufocada e contraída
nasce o grito claro.


António Ramos Rosa

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

O Caso do Homem de Papel

O. era feito de papel. Literalmente. Folhas e folhas e mais folhas em vez de pele. Palavras, frases, textos, poesias, cálculos, equações, desenhos, et caetera, figuravam sobre as muitas páginas que constituíam o seu agasalho. As muitas palavras com que O. compreendia o mundo eram então debitadas a todos aqueles com quem se cruzava. Dependendo do ouvinte, as palavras proferidas por O., encadeadas ou isoladas, soavam ou muito inteligentes ou muito como lugares-comuns. O. era pois muito letrado, muito versado em letras… Letras que outros escritores haviam escrito. Aos poucos O. começou a ficar confuso com tantos escritos, pelo que já não sabia quais escolher para cada ocasião. Chegou mesmo a duvidar das palavras no preciso momento em que as dizia. Aliás, a confusão era tanta que chegou mesmo a confundir o seu nome, O., com Zero! Por altura em que o espaço vazio começou a escassear na sua envoltura de papel, O. já não podia ficar muito tempo em silêncio. A páginas tantas deu-se o inevitável, o espaço para escrever desapareceu e as frases depressa se acumularam e depressa se enlearam e se entrecruzaram até criarem novas frases com e sem sentido. Curiosamente, era das frases sem sentido que os leitores, os ouvintes, os interloocutoress maaeiis apreceeiiaaavffam! Na sua velhice de papiro, O. limitava-se a perorar o quer que fosse, sempre original, sem quaisquer constrangimentos… Havia contudo um tema que ressaltava nas suas perorações, o da reciclagem… Até que um dia uma força maior, suprema, o amachucou e colocou num caixão azul para os devidos efeitos… Talvez um dia renasça sob uma forma proveitosa, seja duma grande obra literária, seja dum grande rolo de papel higiénico.
HM