sexta-feira, 31 de outubro de 2008

O aqui e o ali

Esta semana andei a ler o Pessanha - Clepsydra - que ganhei de presente. Junto ao Pessanha carreguei o João dos Santos - emprestado. Que espécie de antídoto!...

Tinha na intenção deixar-vos uma selecção dos poemas do Pessanha, tarefa que se revelou bastante complicada... Como "arranjar" a selecção? Fidelizar-me à cronologia? Do mais preferido para o menos preferido? Poemas sobre as mulheres, poemas sobre a morte...?

... Lembrei-me do João dos Santos e das suas divagações sobre a gaguez do pensamento e resolvi que a ordem em que aqui iria deixar os poemas seria a mesma da minha memória... E assim fiz... Fui deixando que a memória ditasse a selecção... Pelo meio ficaram outros poemas que também gostei, mas que esqueci... E, depois de ler a selecção, percebi como a associação ligou o aqui e o ali...

Estatua

Cancei-me de tentar o teu segredo:
No teu olhar sem cor, - frio escalpello, -
O meu olhar quebrei, a debatel-o,
Como a onda na crista d’um rochedo.

Segredo d’essa alma, e meu degredo
E minha obcessão! Para bebel-o,
Fui teu lábio oscular, n’um pesadelo,
Por noites de pavor, cheio de medo.

E o meu osculo ardente, hallucinado,
Esfriou sobre o mármore correcto
D’esse entreaberto labio gelado…

D’esse lábio de mármore, discreto,
Severo como um tumulo fechado,Sereno como um pelago quieto.


Camilo Pessanha

Inscripção

Eu vi a luz em um paiz perdido.
A minha alma é lânguida e inerme.
Oh! Quem podesse deslisar sem ruído!
No chão sumir-se, como faz um verme…


Camilo Pessanha

Crepuscular

Ha no ambiente um murmúrio de queixume,
De desejos d’amor, d’ais comprimidos…
Uma ternura esparsa de balidos
Sente-se esmorecer como um perfume.

As madres-silvas murcham nos silvados
E o aroma que exhalam pelo espaço
Tem deliquios de goso e de cansaço,
Nervosos, femininos, delicados.

Sentem-se spasmos, agonias d’ave,
Inaprehenciveis, mínimas, serenas…

Tenho entre as mãos as tuas mãos pequenas,
O meu olhar no teu olhar suave.

As tuas mãos tão brancas d’anemia,
Os teus olhos tão meigos de tristeza…
É este enlanguecer da natureza,
Este vago soffrer do fim do dia.


Camilo Pessanha

Na cadeia

Na cadeia os bandidos presos!
O seu ar de contemplativos!
Que é das feras de olhos acesos?...
Pobres de seus olhos captivos…

Passeiam mudos entre as grades.
Parecem peixes num aquário.
Campo florido das saudades,
Porque rebentas tumultuario?

Serenos. Serenos. Serenos.
Trouxe-os algemados a escolta…
Estranha taça de venenos,
Meu coração sempre em revolta!

Coração, quietinho, quietinho!
Porque te insurges e blasphemas?

Pss… Não batas… Devagarinho…
Olha os soldados, as algemas.


Camilo Pessanha

Vida

Choveu! E logo da terra humosa
Irrompe o campo da liliaceas.
Foi bem fecunda, a estação pluviosa!
Que vigor no campo das liliaceas!

Calquem. Recalquem, não o afogam.
Deixem. Não calquem. Que tudo invadam.
Não as extinguem. Porque as degradam?
Para que as calcam? Não as afogam.

Olhem o fogo que anda na serra.
É a queimada… Que lumaréu!
Podem calcal-o, deitar-lhe terra,
Que não apagam o lumaréu.

Deixem! Não calquem! Deixem arder.
Se aqui o pizam, rebenta alem.
- e se arde tudo? – Isso que tem?
Deitam-lhe fogo, é para arder…


Camilo Pessanha

...

Tatuagens opolentas do meu peito!
Tropheos, emblemas, dois leões alados…
Mais, entre corações engrinaldados,
Um enorme, soberbo amor-perfeito.

E o meu brazão. Tem de oiro, n’um quartel
Vermelho, um liz; e no outro uma donzella,
Em campo azul, de prata o corpo, - aquella
Que é do meu braço como um broquel.

Timbre: rompente, a megalomania.
Divisa: um ai, que insiste noite e dia
Lembrando ruínas, sepulturas rasas,

Entre castellos, serpes batalhantes
E águias de negro desfraldando as azas,
Sobre que realça o oiro dos besantes.


Camilo Pessanha