terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Salomé

Sem palavras...

O Príncipe Feliz

Vejam só esta animação tão bonita d'O Príncipe Feliz, do Wilde...


O Rouxinol e a Rosa

Depois do Conto que nos foi oferecido pela Teresa, lembrei-me que, algures na infância, vi uma animação deste conto do Wilde. Ando em pesquisas pela Net, mas não encontro aquela animação. Nos entretantos, encontrei esta que gostei muito...


terça-feira, 23 de dezembro de 2008

O Café, a Aldeia e a Cidade

Estou no Café da minha antiga rua na Cidade. Passei aqui muitos anos. Quase todos os da faculdade. Gostava de estudar aqui. Sempre gostei de estudar onde havia movimento. Ler tornava-me mais atenta à observação dos alheios e os alheios animavam as minhas leituras. Cheguei a ter uma espécie de grupo de estudo, onde ninguém estudava a mesma coisa. Engenharia do Ambiente, Marketing, Engenharia Civil, Jornalismo, Direito, Belas Artes, Geografia, Psicologia, Psicomotricidade. Neste grupo o tempo era dedicado a tudo o que não tivesse a ver com estudo do próprio e gostávamos especialmente de ir partilhando com os outros membros as descobertas que íamos fazendo nas nossas licenciaturas. Muito ouvi falar sobre ETAR's, sem perceber patavina. O mesmo se passou com as Teorias do Urbanismo, o Direito Constitucional, o Comportamento do Consumidor, Psicomotricidade Instrumental ou Relacional. A ouvir falar de tanta coisa, tinha, de facto, muito pouco tempo para estudar. Tive umas notas incríveis nesse ano particular...


Acabada a época de estudo, cheguei a passar dez horas neste Café. Gostava de me sentar nesta mesa que agora ocupo, perto da janela, onde se podem observar os transeuntes, ou então numa mesa lá muito ao fundo, onde ficava escondida. Ficava a ler. Parava para almoçar. E almoçava no Café. Uma sopa, um sumo de laranja natural e uma sandes de queijo fresco. Era o que eu gostava. Fumava um cigarro. Pedia um café e um bolo de bolacha. Fumava mais um cigarro. Os transeuntes e os alheios ganharam densidade. Começaram a conhecer a minha rotina e eu a deles. Sabiam o que gostava de tomar ao pequeno-almoço - um galão escuro e quente e um pão de centeio mal cozido e cheio de manteiga -, às vezes, muitas vezes, pagavam-me a conta. Perguntavam o que eu andava a ler, se a escola corria bem. Alguns começaram a sentar-se na minha mesa. Às vezes, muitas vezes. Contavam-me histórias das suas famílias e eu da minha. No dia a seguir, perguntavam-me pela minha mãe e pela minha irmã. Quando chegava ao Café de manhã, levantavam-se da minha mesa, para que eu a pudesse ocupar. Sabiam que por ali ia ficar. Tornei-me amiga da rapariga do Café, a Sónia. No dia do seu aniversário fomos cortar o cabelo juntas. A Sónia sabe exactamente como eu gosto do galão. Faz o único galão que eu realmente gosto. Faz exactamente como eu gosto. Também fiquei a dever muitas vezes no Café - "Oh Sónia, aponta aí a minha conta que estou falida. Depois pago."
Deixei Lisboa sem me despedir. Quando voltei encontrei o Café em alvoroço - "Então vais-te embora e não dizes nada a ninguém?". Só não queria dizer adeus. Rapidamente o Café animou-se com as minhas aventuras no Alentejo, mas deixei de ver muitos dos transeuntes.
Estou há quatro dias em Lisboa. Hoje vim tomar o pequeno-almoço ao Café. Re-encontrei os transeuntes nas suas, sempre mesmas, rotinas...
"Olá Ana. Está por cá? Já sei que foi para o Alentejo... Está a gostar? Que tal é aquilo? Não é muito parado? Não sei como aguenta... A minha mais velha já casou. É assim a vida. Vocês sempre têm de sair de casa..."
"Anaaaaaaaa! Então, veio passar o Natal a casa? Desapareceu assim sem dizer nada... Até pensei que tinha casado... Perguntei à sua mãe, ela é que me contou... Anda muito feliz a sua mãe... Está a gostar do seu trabalho? E lá, sozinha, como é que se safa? Já lá arranjou um cafezito onde ler? Sabe que o meu marido é de lá perto. De Monforte. Já conhece? É muito bonito aquilo. Eu sou do Baixo Alentejo. As pessoas do Alto e do Baixo Alentejo são muito diferentes, não acha?"
"Epá, Ana, há quanto tempo não a vejo. O que é que lh aconteceu? Não a via há tanto tempo... calculei que a sua vida tinha levado uma reviravolta. A minha miúda anda doente. Sempre constipada, sempre constipada. Estes miúdos nunca andam agasalhados e por mais que eu lhe diga que no Inverno tem de usar casacos comprimidos.... Ela nem me ouve. E depois anda no basquete... aquilo é só transpirar e depois quando sai está muito frio cá fora. Anda sempre doente, sempre doente. Até me irritei com ela. Coitada, doente e ainda me zanguei com ela... Sabe como é..."
"Anaaaaaa, querida, que bom ver-te. Epá, estás por cá? Ainda vou trabalhar para o laboratório hoje, vê lá. Estive nos Estados Unidos, fui lá ter com a minha namorada. Não sabias que arranjei uma namorada? Vê lá ao tempo que não falamos os dois... Já estou com ela há seis meses. Ver se ainda nos vemos nestes dias. Quando partes? Estive para te ligar não sei quantas vezes, mas depois... Sabes como é. Antes ainda lia o teu blogue, ia acompanhando as novidades, mas agora... não há tempo. Temos de nos ver."
"Olá Ana. Então, veio visitar-nos. Que tal são os Alentejanos? O que é que está lá a fazer? Está a gostar? O João está bem, obrigada. No outro dia fez uma birra no cabeleireiro porque não queria cortar o cabelo. Ainda vai dar em hippie aquele. Ele está sempre a confundi-la com a sua irmã. Vocês estão cada vez mais parecidas."
Gosto das manhãs no Café. Gosto. Gosto desta pequena Aldeia na Cidade. Gosto da Cidade e gosto da Aldeia. Gosto da conversa de Café ou da conversa de Rua. Gosto de falar do tempo e dos miúdos e dos casamentos e dos maridos. E gosto de me ir narrando. Sempre gostei do povo, do quotidiano. Acho belo. E acho belo o cheiro a bolos quentes que fica nos meus cabelos...

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Da Loucura

Na minha estante arrumada, vivem no topo alguns objectos, mais ou menos velados, mais ou menos descobertos... o cavalo de baloiço da infância e dois amantes enlaçados, incrivelmente ligados pelos desenhos de Paula Rego e Fátima Mendonça e pelos contos de Grimm. Na prateleira de cima, arte e literatura menor, no meio, poesia e literatura maior, por fim, psicanálise e psicologia. Pouca psicologia. Pouca.




Ontem li o Loucura do Sá-Carneiro. Esmagada que andei pelo tom sentencioso da coisa, encarnado na persona do Mário-amigo, deambulante-errante pela psicologia de um decadentista. Lembrei-me do Sá-Carneiro da minha adolescência, ele mesmo decadentista – ou assim me parecia – e na impossibilidade de conciliar a sua poesia e a crítica vulgar do sofrimento do outro do Loucura, fiquei só a indagar se esse outro não seria um Eu, olhado por si mesmo, num qualquer desdobramento, proposto a desenhar o mundano desprezo pelo sofrimento.




Em Loucura, o artista, detém-se na compreensão do esvaziamento da vida e do desejo de morte, no final agido, de Raul Vilar, um outro-artista-amigo. Se em muitas contracapas se vai lendo que neste livro Sá-Carneiro revela a mais íntima compreensão das profundezas da alma humana - sublinho que acho esta frase do mais foleiro que há -, na verdade, em quase nada reconheci o Sá-Carneiro dos poemas ou o Sá-Carneiro do Céu em Fogo... Apenas reconheci Sá-Carneiro em Raul Vilar, todo ele cheio de sentidos e sôfrego de peles feitas mámore, todo ele consumido na ânsia do tempo, todo ele em crise, entre o desejo de um sono eterno e a delirante mania dos tronos geniais, todo ele dispersão, todo ele nimbando-se - esta expressão é particularmente dele - à confusão do feminino... E fui encontrando, no livro, um Mário-amigo, que dizia ao Raul-perdido: "Oh Homem de sofrimento, tu precisas é de trabalhar, que tendo a cabeça ocupada, esquecemo-nos das nossas excentricidades! Oh Homem, tu precisas é de te dedicar à família! Oh Homem, olha-te ao espelho para reconheceres o teu rosto perturbado. Oh Homem, deixa-te de crises! És um louco, um louco!"




Mas, afinal, onde estava o Sá-Carneiro que eu conhecia? Encontrei-o nos exacerbados devaneios de Raul Vilar, relatadas pelo Mário-amigo, que me transportavam, viajante, para os poemas e novelas do Sá-Carneiro-sentido. No início pensei mesmo que Raul Vilar havia existido, depois desconfiei... Já quando li o Céu em Fogo, lembro-me de pensar que aquelas estórias tinham mesmo existido na vida de Sá-Carneiro... Fiquei a imaginar que Raul Vilar talvez nunca tenha existido, que ele é Sá-Carneiro desdobrado num outro a quem o mundo foi dizendo: "Tu, deixa-te mas é das palermices do amanhã perdido e vai mas é trabalhar!". Afundado, Raul Vilar, tal como Sá-Carneiro, suicida-se. Em Loucura, Raul Vilar é o génio por detrás de Álcool e o da carne entregue a uma mulher-devassidão... Também Sá-Carneiro escreveu um Álcool e se entregou ao amor embriagado de uma prostituta... E só na morte, no final do livro, os dois - mais os seus desdobramentos - se parecem entender. Mas, afinal, onde está Sá-Carneiro em Loucura?




Desconcertada e, sem saber bem porquê, extremamente preocupada com a existência ou ficção de Raul Vilar, fui à prateleira do meio buscar o meu livro de poemas do Sá-Carnerio, roubado à minha mãe, há dez anos atrás. Encontrei as páginas dobradas nos poemas, na altura daquela leitura, por mim escolhidos e revi alguns anos da minha adolescência. Tudo cheio de uns apontamentos foleiros e de umas ligações que agora me parecem ininteligíveis. Foi aos 15 anos - o ano em que me lembro de ter lido mais - que li o Sá-Carneiro pela primeira vez. Mais tarde, talvez com uns 17, comprei o Céu em Fogo. Aos 24, re-encontrei Sá-Carneiro quando me apaixonei - "Um pouco mais de sol - eu era brasa. Um pouco mais de azul - eu era além.". Depois, ofereceram-me - não sei bem se foi oferecido, será? - o Loucura e, agora, apetece-me ler o Sá-Carneiro todo. Dois dias antes do Loucura, perdida que andava em ser uma comum mortal que passa o fim-de-semana a fazer compras de Natal, quis comprar uma antologia do poeta para dar a um adolescente. Fui proibida: "Isso é muito deprimente para dares a dum adolescente...". Parva, cedi. Eu que gostei tanto de ler o Sá-Carneiro na adolescência - os adolescentes deprimidos e os que desmentem a depressão. Raios! Vou comprar o tal livro para oferecer ao Edgar.




* * *



Vou transladar uns excertos bonitos, que isto de falar de livros é como cozinhar e a seguir não provar o petisco. Vejam lá se Raul Vilar e Sá-Carneiro-dos-poemas-de-céu-em-fogo não parecem um só...

"Raul era dotado de um bizarro carácter: ora alegre, ora triste; ora falador - sem poder estar um minuto calado - ora conservando-se largo empo silencioso, imerso em profunda meditação. por coisas insignificantes, assaltavam-nos às vezes terríveis cóleras (...). Mas as suas cóleras logo abrandavam; a chorar, pedia perdão. Eu perdoava-lhe sempre...

Frequentemente tinha ideias esquisitas, duma esquisitice sinistra. por exemplo, uma noite - depois dum dos seus costumados períodos de mutismo - exclamou de súbito:

- Gostava que morresse toda a gente... todos os animais e só eu ficasse vivo...

- Para quê? - perguntei espantado.

- Para experimentar o medo de me ver completamente só, num mundo cheio de cadáveres. devia ser delicioso! Que calafrio de horror!...

Estas suas excebtricidades, como eu já as conhecia, faziam-me sorrir; ou antes, ouvindo-as, esforçava-me por sorrir. Com efeito, o rosto de Raul acompanhava essas divagações com uma expressão de tal modo singular, os seus olhos brilhavam com tamanho fulgor, que o meu coração se confrangia num vago pressentimento de loucura. esforçava-me por mudar de conversa, o que nem sempre conseguia.

(...)

A estátua que Raul actualmente cinzelava, era Marcela. Aprefeiçoava-a para o amor e - sem pensar na pedra - pensava agora só na sua carne; mármore ardente, palpitante... Imaginava, ensinava-lhe requintes de volúpia. ela, de bom grado se prestava a todas as suas fantasias. não era banalmente no leito burguês - às escuras - que os seus corpos se estreitavam; era em plena luz, em estofos caros e moles, nos divãs do atelier, donde, na fúria do amplexo, rolavam para o chão - abraçados, confundidos... Marcela aparecia envolta em qualquer roupagem trsnaparente. a carne nua mostrava-se no delgado tecido; os seios erectos oscilavam com as suas pontas rosadas a enfolarem o pano...Ah! Como ele gostava de morder esses seios! Beijava-os, mordia-os tão sôfregamente, que uma vez o sangue correra...

Raul, acabava de despir a visão perturbadora, mergulhava o rosto no mar dos seus cabelos, sorvia beijos nos seus lábios, em todo o seu corpo... Adorava os seus pés de deusa; metia-os na boca, roía-os. Beijava-lhe as pernas nervosas e brancas, enlaçava-as nas suas.

Dizia-lhe: «És tão linda! A tua pele, meu amor, cobre toda a tua carne; distendida, sem uma prega... parece querer estoirar...»

(...)

Uma tarde - oh! recordo-me tão bem da cena - Raul disse-me para ir jantar a sua casa. Fui. Marcela apareceu sem saber da minha presença. ao ver-me, estacou ruborizada. é que estava positivamente nua. Vestia-lhe uma túnica que não lhe cobria as costas, que lhe deixava o peito quase todo descoberto. Raul, ao notar a sua perturbação, soltou uma cristalina gargalhada e - voltando-se para mim - clamou:

- Já que não posso mostrar a ninguém a minha melhor obra, ao menos que a conheças tu... Eu nunca tive segredos para ti!...

Com um puxão, despojou Marcela do seu leve vestuário... Numa aparição ideal, eu vi o seu corpo interiramente nun... Que corpo... Nos braços, nas pernas, nos seios, havia nódoas negras: eram escoriações de amor, compreendi... A visão durou um segundo... Ela fugiu chorando... Um louco... um louco, não havia dúvida...

(...)

- Hoje sou novo... Marcelam énova... somos belos... os nossos corpos, esbeltos, flexíveis... os nossos lábios ardentes; os nossos órgãos vigorosos... amamos e sabemos e podemos amar... a carne dum desja a carne do outro; palpitando ao lado dela, esvai-se delirante, arfa morta de prazer... dos nossos corpos brota a vida... amamo-nos, somos novos... somos felizes... mas amanhã?... amanhã...terrível! Seremos velhos... A carne amolecida já não desejará a carne; ou, se a desejar, em vão se esforçará por fremir aos deliciosos contactos. o foco da vida, apagado, não inflamara os sentidos... a alma, que nunca enevelhece, que ama sempre, já não saberá nem poderá amar!... Diante dum corpo encarquilhado e frio, eu recordarei esse mesmo corpo quando ele era fogo... mármore... mármore que ardia... recordarei prazeres estonteantes em horríveis despojoss... morrerei de sede, junto da fonte onde outrora tanta vez bebi a vida a haustos largos... recordar é morrer... e eu não tenho coragem para morrer desta maneira... não tenho! Não hei-de morrer assim!... Lembrar-me que cada dia me aproxima dessa hora fatal e não poder... não poder obstar a que os dias passem!... Ah! meu amigo, o meu cérebro está doente... muito doente... nada o curará!... Se eu pudesse pensar, encarar as coisas como todos as encaram... Mas não posso... não posso... a minha alma é diferente de todas as outras almas!...

- Enlouqueces! - bradei eu, que admirado e aterrorizado, reconhecia o antigo Raul com a sua antiga loucura. - Explusa esses pensamentos alucinantes... Distrai-te, trabalha... ama a tua linda mulher... para que te matares com essas ideias que, nota bem, te podem conduzir à loucura?

(...)

Era noite; uma noite tépida, estrelada; no entanto, escura, á falat de luar.

O meu amigo levou-me para a estrada da Praia das Maçãs. o silêncio era absoluto. (...) O escultor , que até aíme falara por monossílabos, apretando-me o braço com força, exclamou bruscamente:

- Ah! não calculas como sou desgraçado... não podes calcular...

- Desgraçado, porquê? - indaguei.

- Por muitos motivos.

- Enumera-os.

Não respondeu logo. Foi só passado alguns minutos que começou, como se continuasse - flando - o curso dos seus pensamento mudos:

- É horrível!... Marcela não me acreditava... Eu menti-lhe uma vez... podia-lje mentir muitas... agora diz que me acreditava... mas duvido... porque há-de ela acreditar? Eu não lhe dei provas... Ainda não lhe dei a prova...

(...)

À uma hora, deitados os criados, Raul encaminhou-se com Marcela para o atelier. Antes de entrar, perguntou:

- Sabes o que vamos fazer?

Se ela o sabia... ali dentro tinham-se passado os mais deliciosos instantes da sua vida... ali dentro, cada móvel, cada objecto, recordava-lhe um beijo, uma carícia, um amplexo... se não sabia o que iam fazer... se não sabia...

Raul abriu a porta. Marcela soltou uma exclamação. (...) Obrigou-a a entrar. Fechou a porta sobre si; impeliu-a para cima dum sofá e, ajoelhando aos seus pés, exclamou:

- É chegado o momento. Vais acreditar... vou-te convencer da grandeza sobre-humana do meu amor!... Escuta-me: não se ama uma velha... uma criatura enferma... uma criatura disforme... o amor que devia ser um sentimento todo da alma, é um sentimento só dos sentidos. Ama-se porque é bom amar... (...) Vou-te provar que não minto... Vou-te dar a maior prova de amor... Beija-me... dá-me a tua boca... preciso de coragem, de muita coragem... Ouve-me, compreende-me, e não tenhas medo: vou despedaçar a obra-prima do teu rosto... torná-lo uma cicatriz hedionda, onde não se conhecem as feições... sem olhos... sem lábios... vou queimar os teus seios... sujar para sempre a brancura imaculada da tua carne... e assim, um monstro repelente, continuarei a amar-te, amar-te-ei muito mais, porque todo o tempo será para ver a tua alma... (...) Não tenhas medo, não grites... não grites... vais ser muito feliz... vamos ser muito felizes...

(...)

E numa alucinação, num delírio de loucura, correu a uma prateleira... pegou num frasco...

Marcela, aterrorizada, ainda sem perceber, tantava fugir, encontrar uma saída, chorava e gritava...

Raul, pondo-se em frente da porta, bradou:

- Não fujas... não chores... isto é vitríolo... vou-to lançar ao rosto... espalhá-lo pelo teu corpo... vou-te matar o corpo para dar mais vida à alma... vou-te dar a eternidade... fazer parar o tempo... espera... não grites... não tenhas medo... nem faz doer... nem faz doer... e mesmo que fizesse... é para seres feliz... muito feliz... "

(Locura, Mário de Sá-Carneiro)

"Grifado quebranto... Na minha atracção de Mistério freme densamente qualquer coisa de sexual... Se tanto o sonho e o visiono, o ergo em anseio perdido - é numa sensualidade esguia, diamante e delgada: em crispado.

(...)

Mal chegámos, logo a minha ignorada arremessou o seu manto sobre uma poltrona espessa. E, em face dum grande espelho, logo também se despojou do seu costume. Ficou toda nua. No seu rosto sempre a máscara verde...

Quando o seu corpo surgiu liberto e esplêndido, imóvel como uma estátua, a meio do aposento - foi muito frisante, a luz modificou-se. Desabrocharam mais arqueadas as listas, em impulsos mais rápidos e esguios - influência por certo da auréola de platina que, baçamente, o seu corpo macerado nimbava em redor... (...) Toda essa carene de Segredo ia ser minha! E um espasmo de alívio se me envolveu por vê-la conservar a máscara - íntegro assim, em ruivo, o Enigam!...

Rolámos doidamente pelo grande leito. Sob o meu corpo rangeu delírios a sua carne de Apoteose e Alma... Ah! mas de súbito os meus olhos fixaram-se em qualquer coisa mais resplandecente que brilhava perto, sobre o mármore rosa do fogão: o punhal que, ao desnudar-se, ela deixara ali, em descuido. Continueu a mordê-la... (...) Até que, por último, um espasmo recamado em insinuações astrais me soçobrou... Mas, ao esvair-me, ah! não foi a carne sumptuosa que eu possuí, opolento - foram os reflexos imperiais da jóia maldita!

De súbito, desenvencilhei-me... Precipitei-me sobre o punhal... era tempo! O Mistério ia desmoronar-se... ela erguia-se já... tiraria a máscara, por certo... eu próprio lha arrancaria... e vê-la... saber quem ela era... ver os seus olhos... deixá-la... Não! Não... Imposssível. (...) Foi uma ânsia de estertores! Mas venci!... Empunhei a arma rudemente... e cambaleando, num redemoinho, numa vertigem, enterrei-lha todo no coração... Não houve um gemido, apenas os seis oscilaram. Que hora grandiosa! (...) A sua morte, a sua morte, a verdadeira prova de amor. "

(Céu em Fogo, A Grande Sombra, Mário de Sá-Carneiro)

Álcool

Guilhotinas, pelouros e castelos

Resvalam longemente em procissão;

Volteiam-se crepúsculos amarelos,

Mordidos, doentios de roxidão.

Batem asas de auréola aos meus ouvidos,

Grifam-se sons de cor e de perfumes,

Ferem-se os olhos turbilhões de gumes,

Descem-me a alma, sangram-me os sentidos.

Respiro-me no ar que ao longe vem,

Da luz que me ilumina participo;

Quer reunir-me, e todo me dissipo -

Luto, estrebucho... Em vão! Silvo para além...

Corro em volta de mim sem me encontrar...

Tudo oscila e se abate como espuma...

Um disco de oiro surge a voltear...

Fecho os meus olhos com pavor da bruma...

Que droga foi a que me inoculei?

Ópio de inferno em vez de paraíso?...

Que sortilégio a mim próprio lancei?

Como é que em dor genial eu me eternizo?

Nem ópio nem morfina. O que me ardeu,

Foi álcool mais raro e penetrante:

É só de mim que ando delirante -

Manhã tão forte que me anoiteceu.

O Recreio

Na minha Alma há um balouço

Que está sempre a balouçar -

Balouço à beira dum poço,

Bem difícil de montar...

- E um menino de bibe

Sobre ele sempre a brincar...

Se a corda se parte um dia

(E já vai estando esgarçada),

Era uma vez a folia:

Morre a criança afogada...

- Cá por mim não mudo a corda,

Seria uma grande estopada...

Se o indez morre, deixá-lo...

Mais vale morrer de bibe

Que de casaca... Deixá-lo

Balouçar-se enquanto vive...

- Mudar a corda era fácil...

Tal ideia nunca tive...

Abrigo

Paris da minha ternura

Onde estava a minha Obra -

Minha Lua e minha Cobra,

Timbre da minha aventura.

Ó meu Paris, meu menino,

Meu inefável brinquedo...

- Paris do lindo segredo

Ausente do meu destino.

Regaço de namorada,

Meu enleio apetecido -

Meu vinho de Oiro bebido

Por taça logo quebrada...

Minha febre e minha calma -

Ponte sobre o meu revés:

Consolo da viuvez

Sempre noiva da minha Alma...

Ó fita benta de cor,

Compressa minhas feridas...

- Ó minhas unhas polidas,

- Meu cristal de toucador...

Meu eterno dia de anos,

Minha festa de veludo...

Paris: derradeiro escudo,

Silêncio dos meus enganos.

Milagroso carrossel

Em feira de fantasia -

Meu órgão de Barbaria,

Meu tetaro de papel...

Minha cidade-figura,

Minha cidade com rosto...

- Ai, meu acerado gosto,

Minha fruta mal madura...

Macenilha e bem-me-quer,

Paris - meu lobo e amigo...

- Quisera dormir contigo,

Ser todo a tua mulher!...

7

Eu não sou eu nem o outro,

sou qualquer coisa de intermédio:

Pilar da ponte de tédio

Que vai de mim para o Outro.

16

Esta inconstância de mim próprio em vibração

É que me há-de transpor às zonas intermédias,

E seguirei entre cristais de inquietação,

A retinir, a ondular... Soltas as rédeas,

Meus sonhos, leões de fogo e pasmo domados a tirar

A torre dem oiro que era o carro da minha Alma,

Transviarão pelo deseto, moribundos de Luar -

E eu só me lembrarei num baloiçar de palma...

Nos oásis depois hão-de-se abismar gumes,

A atmosfera há-de ser outra, noutros planos;

As râs hão-de coaxar-me em roucos tons humanos

Vomitando a minha carne que comeram entre estrumes...

Salomé

Insónia roxa. A luz a virgular-se em medo,

Luz morta de luar, mais Alma do que lua...

Ela dança, ela range. A carne, álcool de nua,

Alastra-se pra mim num espasmo de segredo...

Tudo é capricho ao seu redor, em sombras fátuas...

o aroma endoideceu, upou-se em coe, quebrou...

Tenho frio... Alabastro!... A minha Alma parou...

E o seu corpo resvala a projectar estátuas...

Ela chama-se Íris. Nimba-se a perder-se,

Golfa-me os seios nus, ecoa-me em quebranto...

Timbres, elmos punhais... A doida quer morrer-me...

Mordora-se a chorar - há sexos no seu pronto...

Ergo-me em som, oscilo, e parto, e vou arder-me

Na boca imperial que humanizou um Santo...

(Queria transladar - esta palavra é gira! - mais, mas já não tenho tempo...

Porra, este gajo é mesmo bom!...

Pena os poemas não ficarem formatados devidamente! Que seca para estas coisas!! Lembrar aí os chefes destes engenhos virtuais que o espaço é uma coisa muito importante!!! Raios!!)


segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Afinal, eu morava numa estante...

Já recebi o presente de Natal... Queria uma estante para a minha nova casa, depois de ver em sofrimento os poucos livros que tinha comigo, cujas páginas se contorciam ao sabor da humidade que resolveu morar comigo (que raio de companheira!)... Veio a estante e com ela quase todos os meus livros... A minha tarefa de ontem à noite consistiu em esvaziar o meu antigo quarto e cuidadosamente embalar os meus queridos... É incrível como o meu antigo quarto ficou realmente vazio... Realmente vazio... Ficou sem mim... E desta percebi que estou mesmo a sair de casa... Ainda não saí, vou saindo, mas agora já saí quase toda... De alguns dos livros que trago comigo guardo apenas uma vaga (muito vaga) memória, mas sei o preciso momento em que os li a todos... A minha estante é uma contadora de histórias, o grande livro...

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Da Contradição ou as Bandas Sonoras dos Nossos Dias


Esta semana prolonguei a minha estadia por Lisboa. Terça-feira recuperei o vetusto hábito do Choro, agora abraçado pelo Lusitano.













Nunca tinha ido ao Lusitano. Antes era um outro Choro o que se tocava no Cefalópode. Agora há uma sala maior, onde os pares se encontram para dançar, reflectidos em enormes espelhos que prolongam e multiplicam a sala e os seus ocupantes, sob uma intensa luz vermelha.


Finda a noite, volto para casa e ligo a minha caixinha de música portátil. Uma instantânea sensação de estranheza, mas em breve estaria já entregue ao cantarolar dos MGMT. Fiquei espantada com a total desordem das bandas sonoras dos meus dias. Do romantismo naïf ao total freakshow, passando por coisas que nem sei o que são e pelo pochlost - se não sabem o que é, podem ler O Nascer do Sol - é possível encontrar quase tudo na minha disfuncional - (?) - banda sonora. E depois de ouvir tanta música e de ter ficado assim pro confusa, imaginei que eu sou assim-assim-exactamente como aquela confusão. E, como a banda sonora que liga diferentes actos, a minha banda sonora liga os meus bocados.



Devendra Banhart - A Ribbon



Lionel Loueke



Virgin Prunes - Pagan Lovesong



MGMT - 4th Dimensionla Transition




Sun Ra - Space is the Place



Vetiver - Oh Papa



Anthony and the Johnsons - Hope there's someone