Na minha estante arrumada, vivem no topo alguns objectos, mais ou menos velados, mais ou menos descobertos... o cavalo de baloiço da infância e dois amantes enlaçados, incrivelmente ligados pelos desenhos de Paula Rego e Fátima Mendonça e pelos contos de Grimm. Na prateleira de cima, arte e literatura menor, no meio, poesia e literatura maior, por fim, psicanálise e psicologia. Pouca psicologia. Pouca.
Ontem li o Loucura do Sá-Carneiro. Esmagada que andei pelo tom sentencioso da coisa, encarnado na persona do Mário-amigo, deambulante-errante pela psicologia de um decadentista. Lembrei-me do Sá-Carneiro da minha adolescência, ele mesmo decadentista – ou assim me parecia – e na impossibilidade de conciliar a sua poesia e a crítica vulgar do sofrimento do outro do Loucura, fiquei só a indagar se esse outro não seria um Eu, olhado por si mesmo, num qualquer desdobramento, proposto a desenhar o mundano desprezo pelo sofrimento.
Em Loucura, o artista, detém-se na compreensão do esvaziamento da vida e do desejo de morte, no final agido, de Raul Vilar, um outro-artista-amigo. Se em muitas contracapas se vai lendo que neste livro Sá-Carneiro revela a mais íntima compreensão das profundezas da alma humana - sublinho que acho esta frase do mais foleiro que há -, na verdade, em quase nada reconheci o Sá-Carneiro dos poemas ou o Sá-Carneiro do Céu em Fogo... Apenas reconheci Sá-Carneiro em Raul Vilar, todo ele cheio de sentidos e sôfrego de peles feitas mámore, todo ele consumido na ânsia do tempo, todo ele em crise, entre o desejo de um sono eterno e a delirante mania dos tronos geniais, todo ele dispersão, todo ele nimbando-se - esta expressão é particularmente dele - à confusão do feminino... E fui encontrando, no livro, um Mário-amigo, que dizia ao Raul-perdido: "Oh Homem de sofrimento, tu precisas é de trabalhar, que tendo a cabeça ocupada, esquecemo-nos das nossas excentricidades! Oh Homem, tu precisas é de te dedicar à família! Oh Homem, olha-te ao espelho para reconheceres o teu rosto perturbado. Oh Homem, deixa-te de crises! És um louco, um louco!"
Mas, afinal, onde estava o Sá-Carneiro que eu conhecia? Encontrei-o nos exacerbados devaneios de Raul Vilar, relatadas pelo Mário-amigo, que me transportavam, viajante, para os poemas e novelas do Sá-Carneiro-sentido. No início pensei mesmo que Raul Vilar havia existido, depois desconfiei... Já quando li o Céu em Fogo, lembro-me de pensar que aquelas estórias tinham mesmo existido na vida de Sá-Carneiro... Fiquei a imaginar que Raul Vilar talvez nunca tenha existido, que ele é Sá-Carneiro desdobrado num outro a quem o mundo foi dizendo: "Tu, deixa-te mas é das palermices do amanhã perdido e vai mas é trabalhar!". Afundado, Raul Vilar, tal como Sá-Carneiro, suicida-se. Em Loucura, Raul Vilar é o génio por detrás de Álcool e o da carne entregue a uma mulher-devassidão... Também Sá-Carneiro escreveu um Álcool e se entregou ao amor embriagado de uma prostituta... E só na morte, no final do livro, os dois - mais os seus desdobramentos - se parecem entender. Mas, afinal, onde está Sá-Carneiro em Loucura?
Desconcertada e, sem saber bem porquê, extremamente preocupada com a existência ou ficção de Raul Vilar, fui à prateleira do meio buscar o meu livro de poemas do Sá-Carnerio, roubado à minha mãe, há dez anos atrás. Encontrei as páginas dobradas nos poemas, na altura daquela leitura, por mim escolhidos e revi alguns anos da minha adolescência. Tudo cheio de uns apontamentos foleiros e de umas ligações que agora me parecem ininteligíveis. Foi aos 15 anos - o ano em que me lembro de ter lido mais - que li o Sá-Carneiro pela primeira vez. Mais tarde, talvez com uns 17, comprei o Céu em Fogo. Aos 24, re-encontrei Sá-Carneiro quando me apaixonei - "Um pouco mais de sol - eu era brasa. Um pouco mais de azul - eu era além.". Depois, ofereceram-me - não sei bem se foi oferecido, será? - o Loucura e, agora, apetece-me ler o Sá-Carneiro todo. Dois dias antes do Loucura, perdida que andava em ser uma comum mortal que passa o fim-de-semana a fazer compras de Natal, quis comprar uma antologia do poeta para dar a um adolescente. Fui proibida: "Isso é muito deprimente para dares a dum adolescente...". Parva, cedi. Eu que gostei tanto de ler o Sá-Carneiro na adolescência - os adolescentes deprimidos e os que desmentem a depressão. Raios! Vou comprar o tal livro para oferecer ao Edgar.
* * *
Vou transladar uns excertos bonitos, que isto de falar de livros é como cozinhar e a seguir não provar o petisco. Vejam lá se Raul Vilar e Sá-Carneiro-dos-poemas-de-céu-em-fogo não parecem um só...
"Raul era dotado de um bizarro carácter: ora alegre, ora triste; ora falador - sem poder estar um minuto calado - ora conservando-se largo empo silencioso, imerso em profunda meditação. por coisas insignificantes, assaltavam-nos às vezes terríveis cóleras (...). Mas as suas cóleras logo abrandavam; a chorar, pedia perdão. Eu perdoava-lhe sempre...
Frequentemente tinha ideias esquisitas, duma esquisitice sinistra. por exemplo, uma noite - depois dum dos seus costumados períodos de mutismo - exclamou de súbito:
- Gostava que morresse toda a gente... todos os animais e só eu ficasse vivo...
- Para quê? - perguntei espantado.
- Para experimentar o medo de me ver completamente só, num mundo cheio de cadáveres. devia ser delicioso! Que calafrio de horror!...
Estas suas excebtricidades, como eu já as conhecia, faziam-me sorrir; ou antes, ouvindo-as, esforçava-me por sorrir. Com efeito, o rosto de Raul acompanhava essas divagações com uma expressão de tal modo singular, os seus olhos brilhavam com tamanho fulgor, que o meu coração se confrangia num vago pressentimento de loucura. esforçava-me por mudar de conversa, o que nem sempre conseguia.
(...)
A estátua que Raul actualmente cinzelava, era Marcela. Aprefeiçoava-a para o amor e - sem pensar na pedra - pensava agora só na sua carne; mármore ardente, palpitante... Imaginava, ensinava-lhe requintes de volúpia. ela, de bom grado se prestava a todas as suas fantasias. não era banalmente no leito burguês - às escuras - que os seus corpos se estreitavam; era em plena luz, em estofos caros e moles, nos divãs do atelier, donde, na fúria do amplexo, rolavam para o chão - abraçados, confundidos... Marcela aparecia envolta em qualquer roupagem trsnaparente. a carne nua mostrava-se no delgado tecido; os seios erectos oscilavam com as suas pontas rosadas a enfolarem o pano...Ah! Como ele gostava de morder esses seios! Beijava-os, mordia-os tão sôfregamente, que uma vez o sangue correra...
Raul, acabava de despir a visão perturbadora, mergulhava o rosto no mar dos seus cabelos, sorvia beijos nos seus lábios, em todo o seu corpo... Adorava os seus pés de deusa; metia-os na boca, roía-os. Beijava-lhe as pernas nervosas e brancas, enlaçava-as nas suas.
Dizia-lhe: «És tão linda! A tua pele, meu amor, cobre toda a tua carne; distendida, sem uma prega... parece querer estoirar...»
(...)
Uma tarde - oh! recordo-me tão bem da cena - Raul disse-me para ir jantar a sua casa. Fui. Marcela apareceu sem saber da minha presença. ao ver-me, estacou ruborizada. é que estava positivamente nua. Vestia-lhe uma túnica que não lhe cobria as costas, que lhe deixava o peito quase todo descoberto. Raul, ao notar a sua perturbação, soltou uma cristalina gargalhada e - voltando-se para mim - clamou:
- Já que não posso mostrar a ninguém a minha melhor obra, ao menos que a conheças tu... Eu nunca tive segredos para ti!...
Com um puxão, despojou Marcela do seu leve vestuário... Numa aparição ideal, eu vi o seu corpo interiramente nun... Que corpo... Nos braços, nas pernas, nos seios, havia nódoas negras: eram escoriações de amor, compreendi... A visão durou um segundo... Ela fugiu chorando... Um louco... um louco, não havia dúvida...
(...)
- Hoje sou novo... Marcelam énova... somos belos... os nossos corpos, esbeltos, flexíveis... os nossos lábios ardentes; os nossos órgãos vigorosos... amamos e sabemos e podemos amar... a carne dum desja a carne do outro; palpitando ao lado dela, esvai-se delirante, arfa morta de prazer... dos nossos corpos brota a vida... amamo-nos, somos novos... somos felizes... mas amanhã?... amanhã...terrível! Seremos velhos... A carne amolecida já não desejará a carne; ou, se a desejar, em vão se esforçará por fremir aos deliciosos contactos. o foco da vida, apagado, não inflamara os sentidos... a alma, que nunca enevelhece, que ama sempre, já não saberá nem poderá amar!... Diante dum corpo encarquilhado e frio, eu recordarei esse mesmo corpo quando ele era fogo... mármore... mármore que ardia... recordarei prazeres estonteantes em horríveis despojoss... morrerei de sede, junto da fonte onde outrora tanta vez bebi a vida a haustos largos... recordar é morrer... e eu não tenho coragem para morrer desta maneira... não tenho! Não hei-de morrer assim!... Lembrar-me que cada dia me aproxima dessa hora fatal e não poder... não poder obstar a que os dias passem!... Ah! meu amigo, o meu cérebro está doente... muito doente... nada o curará!... Se eu pudesse pensar, encarar as coisas como todos as encaram... Mas não posso... não posso... a minha alma é diferente de todas as outras almas!...
- Enlouqueces! - bradei eu, que admirado e aterrorizado, reconhecia o antigo Raul com a sua antiga loucura. - Explusa esses pensamentos alucinantes... Distrai-te, trabalha... ama a tua linda mulher... para que te matares com essas ideias que, nota bem, te podem conduzir à loucura?
(...)
Era noite; uma noite tépida, estrelada; no entanto, escura, á falat de luar.
O meu amigo levou-me para a estrada da Praia das Maçãs. o silêncio era absoluto. (...) O escultor , que até aíme falara por monossílabos, apretando-me o braço com força, exclamou bruscamente:
- Ah! não calculas como sou desgraçado... não podes calcular...
- Desgraçado, porquê? - indaguei.
- Por muitos motivos.
- Enumera-os.
Não respondeu logo. Foi só passado alguns minutos que começou, como se continuasse - flando - o curso dos seus pensamento mudos:
- É horrível!... Marcela não me acreditava... Eu menti-lhe uma vez... podia-lje mentir muitas... agora diz que me acreditava... mas duvido... porque há-de ela acreditar? Eu não lhe dei provas... Ainda não lhe dei a prova...
(...)
À uma hora, deitados os criados, Raul encaminhou-se com Marcela para o atelier. Antes de entrar, perguntou:
- Sabes o que vamos fazer?
Se ela o sabia... ali dentro tinham-se passado os mais deliciosos instantes da sua vida... ali dentro, cada móvel, cada objecto, recordava-lhe um beijo, uma carícia, um amplexo... se não sabia o que iam fazer... se não sabia...
Raul abriu a porta. Marcela soltou uma exclamação. (...) Obrigou-a a entrar. Fechou a porta sobre si; impeliu-a para cima dum sofá e, ajoelhando aos seus pés, exclamou:
- É chegado o momento. Vais acreditar... vou-te convencer da grandeza sobre-humana do meu amor!... Escuta-me: não se ama uma velha... uma criatura enferma... uma criatura disforme... o amor que devia ser um sentimento todo da alma, é um sentimento só dos sentidos. Ama-se porque é bom amar... (...) Vou-te provar que não minto... Vou-te dar a maior prova de amor... Beija-me... dá-me a tua boca... preciso de coragem, de muita coragem... Ouve-me, compreende-me, e não tenhas medo: vou despedaçar a obra-prima do teu rosto... torná-lo uma cicatriz hedionda, onde não se conhecem as feições... sem olhos... sem lábios... vou queimar os teus seios... sujar para sempre a brancura imaculada da tua carne... e assim, um monstro repelente, continuarei a amar-te, amar-te-ei muito mais, porque todo o tempo será para ver a tua alma... (...) Não tenhas medo, não grites... não grites... vais ser muito feliz... vamos ser muito felizes...
(...)
E numa alucinação, num delírio de loucura, correu a uma prateleira... pegou num frasco...
Marcela, aterrorizada, ainda sem perceber, tantava fugir, encontrar uma saída, chorava e gritava...
Raul, pondo-se em frente da porta, bradou:
- Não fujas... não chores... isto é vitríolo... vou-to lançar ao rosto... espalhá-lo pelo teu corpo... vou-te matar o corpo para dar mais vida à alma... vou-te dar a eternidade... fazer parar o tempo... espera... não grites... não tenhas medo... nem faz doer... nem faz doer... e mesmo que fizesse... é para seres feliz... muito feliz... "
(Locura, Mário de Sá-Carneiro)
"Grifado quebranto... Na minha atracção de Mistério freme densamente qualquer coisa de sexual... Se tanto o sonho e o visiono, o ergo em anseio perdido - é numa sensualidade esguia, diamante e delgada: em crispado.
(...)
Mal chegámos, logo a minha ignorada arremessou o seu manto sobre uma poltrona espessa. E, em face dum grande espelho, logo também se despojou do seu costume. Ficou toda nua. No seu rosto sempre a máscara verde...
Quando o seu corpo surgiu liberto e esplêndido, imóvel como uma estátua, a meio do aposento - foi muito frisante, a luz modificou-se. Desabrocharam mais arqueadas as listas, em impulsos mais rápidos e esguios - influência por certo da auréola de platina que, baçamente, o seu corpo macerado nimbava em redor... (...) Toda essa carene de Segredo ia ser minha! E um espasmo de alívio se me envolveu por vê-la conservar a máscara - íntegro assim, em ruivo, o Enigam!...
Rolámos doidamente pelo grande leito. Sob o meu corpo rangeu delírios a sua carne de Apoteose e Alma... Ah! mas de súbito os meus olhos fixaram-se em qualquer coisa mais resplandecente que brilhava perto, sobre o mármore rosa do fogão: o punhal que, ao desnudar-se, ela deixara ali, em descuido. Continueu a mordê-la... (...) Até que, por último, um espasmo recamado em insinuações astrais me soçobrou... Mas, ao esvair-me, ah! não foi a carne sumptuosa que eu possuí, opolento - foram os reflexos imperiais da jóia maldita!
De súbito, desenvencilhei-me... Precipitei-me sobre o punhal... era tempo! O Mistério ia desmoronar-se... ela erguia-se já... tiraria a máscara, por certo... eu próprio lha arrancaria... e vê-la... saber quem ela era... ver os seus olhos... deixá-la... Não! Não... Imposssível. (...) Foi uma ânsia de estertores! Mas venci!... Empunhei a arma rudemente... e cambaleando, num redemoinho, numa vertigem, enterrei-lha todo no coração... Não houve um gemido, apenas os seis oscilaram. Que hora grandiosa! (...) A sua morte, a sua morte, a verdadeira prova de amor. "
(Céu em Fogo, A Grande Sombra, Mário de Sá-Carneiro)
Álcool
Guilhotinas, pelouros e castelos
Resvalam longemente em procissão;
Volteiam-se crepúsculos amarelos,
Mordidos, doentios de roxidão.
Batem asas de auréola aos meus ouvidos,
Grifam-se sons de cor e de perfumes,
Ferem-se os olhos turbilhões de gumes,
Descem-me a alma, sangram-me os sentidos.
Respiro-me no ar que ao longe vem,
Da luz que me ilumina participo;
Quer reunir-me, e todo me dissipo -
Luto, estrebucho... Em vão! Silvo para além...
Corro em volta de mim sem me encontrar...
Tudo oscila e se abate como espuma...
Um disco de oiro surge a voltear...
Fecho os meus olhos com pavor da bruma...
Que droga foi a que me inoculei?
Ópio de inferno em vez de paraíso?...
Que sortilégio a mim próprio lancei?
Como é que em dor genial eu me eternizo?
Nem ópio nem morfina. O que me ardeu,
Foi álcool mais raro e penetrante:
É só de mim que ando delirante -
Manhã tão forte que me anoiteceu.
O Recreio
Na minha Alma há um balouço
Que está sempre a balouçar -
Balouço à beira dum poço,
Bem difícil de montar...
- E um menino de bibe
Sobre ele sempre a brincar...
Se a corda se parte um dia
(E já vai estando esgarçada),
Era uma vez a folia:
Morre a criança afogada...
- Cá por mim não mudo a corda,
Seria uma grande estopada...
Se o indez morre, deixá-lo...
Mais vale morrer de bibe
Que de casaca... Deixá-lo
Balouçar-se enquanto vive...
- Mudar a corda era fácil...
Tal ideia nunca tive...
Abrigo
Paris da minha ternura
Onde estava a minha Obra -
Minha Lua e minha Cobra,
Timbre da minha aventura.
Ó meu Paris, meu menino,
Meu inefável brinquedo...
- Paris do lindo segredo
Ausente do meu destino.
Regaço de namorada,
Meu enleio apetecido -
Meu vinho de Oiro bebido
Por taça logo quebrada...
Minha febre e minha calma -
Ponte sobre o meu revés:
Consolo da viuvez
Sempre noiva da minha Alma...
Ó fita benta de cor,
Compressa minhas feridas...
- Ó minhas unhas polidas,
- Meu cristal de toucador...
Meu eterno dia de anos,
Minha festa de veludo...
Paris: derradeiro escudo,
Silêncio dos meus enganos.
Milagroso carrossel
Em feira de fantasia -
Meu órgão de Barbaria,
Meu tetaro de papel...
Minha cidade-figura,
Minha cidade com rosto...
- Ai, meu acerado gosto,
Minha fruta mal madura...
Macenilha e bem-me-quer,
Paris - meu lobo e amigo...
- Quisera dormir contigo,
Ser todo a tua mulher!...
7
Eu não sou eu nem o outro,
sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro.
16
Esta inconstância de mim próprio em vibração
É que me há-de transpor às zonas intermédias,
E seguirei entre cristais de inquietação,
A retinir, a ondular... Soltas as rédeas,
Meus sonhos, leões de fogo e pasmo domados a tirar
A torre dem oiro que era o carro da minha Alma,
Transviarão pelo deseto, moribundos de Luar -
E eu só me lembrarei num baloiçar de palma...
Nos oásis depois hão-de-se abismar gumes,
A atmosfera há-de ser outra, noutros planos;
As râs hão-de coaxar-me em roucos tons humanos
Vomitando a minha carne que comeram entre estrumes...
Salomé
Insónia roxa. A luz a virgular-se em medo,
Luz morta de luar, mais Alma do que lua...
Ela dança, ela range. A carne, álcool de nua,
Alastra-se pra mim num espasmo de segredo...
Tudo é capricho ao seu redor, em sombras fátuas...
o aroma endoideceu, upou-se em coe, quebrou...
Tenho frio... Alabastro!... A minha Alma parou...
E o seu corpo resvala a projectar estátuas...
Ela chama-se Íris. Nimba-se a perder-se,
Golfa-me os seios nus, ecoa-me em quebranto...
Timbres, elmos punhais... A doida quer morrer-me...
Mordora-se a chorar - há sexos no seu pronto...
Ergo-me em som, oscilo, e parto, e vou arder-me
Na boca imperial que humanizou um Santo...
(Queria transladar - esta palavra é gira! - mais, mas já não tenho tempo...
Porra, este gajo é mesmo bom!...
Pena os poemas não ficarem formatados devidamente! Que seca para estas coisas!! Lembrar aí os chefes destes engenhos virtuais que o espaço é uma coisa muito importante!!! Raios!!)

2 comentários:
Tremendamente genial.
grandes e intensos escritos.
espero que estejas melhor da gripe e bebemos uns copos à tua saúde ontem!, bjs
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