Двойник
Однажды в октябрьском тумане
Я брел, вспоминая напев.
(О, миг непродажных лобзаний!
О, ласки некупленных дев!)
И вот - в непроглядном тумане
Возник позабытый напев.
И стала мне молодость сниться,
И ты, как живая, и ты...
И стал я мечтой уноситься
От ветра, дождя, темноты...
(Так ранняя молодость снится.
А ты-то, вернешься ли ты?)
Вдруг вижу - из ночи туманной,
Шатаясь, подходит ко мне
Стареющий юноша (странно,
Не снился ли мне он во сне?),
Выходит из ночи туманной
И прямо подходит ко мне.
И шепчет: "Устал я шататься,
Промозглым туманом дышать,
В чужих зеркалах отражаться
И женщин чужих целовать..."
И стало мне странным казаться,
Что я его встречу опять...
Вдруг - от улыбнулся нахально,
И нет близ меня никого...
Знаком этот образ печальный,
И где-то я видел его...
Быть может, себя самого
Я встретил на глади зеркальной?
Alexander Blok
Октябрь 1909
sexta-feira, 22 de maio de 2009
Riqueza




Há oito dias que o meu jantar se resume a uma taça gorda de cereais de chocolate com leite - excepto no dia em que B jantou cá... lá consegui desencantar duas postas manhosas de salmão. Estas considerações sobre a minha vida nutricional não são mais do que uma premissa para pensar nas consequências das nossas acções. Tudo isto aconteceu porque fui à Feira do Livro com O, esquecendo todas as minhas obrigações alimentares para a semana seguinte - esta em que agora me encontro a sobreviver de Chocapic.
Das muitas páginas que ficaram por comprar lá consegui encontrar, a preço de pechincha, três relíquias, duas fundamentais: os Indícios Terrestres de Tsvietaieva e um livro de desenhos de Balthus, prefaciado por Rainer Maria Rilke. Neste último, Balthus desenha a história de um gato, Mitsou, que encontrou e perdeu com a idade de treze. Depois lá vêm as palavras de Rilke que dão aquela densidade da perda às ilustrações. Eles é que percebem, eles é que percebem... os outros - nós - vamos tentando... atentando, a maior parte das vezes.
Conheci o Balthus tardiamente, quando andava embrenhada na Paula Rego, mas penso que me bastou ver um único quadro. Sim, foi isso o que bastou. Ele carrega o homicídio da infância, naquele limbo onde as frestas se fazem janelas e se acabam os segredos. Acho os quadros do Balthus muito tristes. Inquietantes. E gosto. Gosto muito. E tem gatos, muitos gatos. Há dois anos estava em Colónia, preparando-me para abandonar a cidade, quando encontrei um museu, não tão escondido, com uma avassaladora exposição do Balthus. Não sei se alguma vez recuperarei dessa exposição.
* * *
"Nos meus sentimentos, como nos das crianças, não há graus."
Indícios Terrestres, Tsvietaieva, Relógio D´Água
* * *
À Vida
Não roubarás minha cor
Vermelha, de rio que estua.
Sou recusa: és caçador.
Persegues: eu sou a fuga.
Não dou minha alma cativa!
Colhido em pleno disparo,
Curva o pescoço o cabelo
Árabe — E abre a veia da vida.
Vermelha, de rio que estua.
Sou recusa: és caçador.
Persegues: eu sou a fuga.
Não dou minha alma cativa!
Colhido em pleno disparo,
Curva o pescoço o cabelo
Árabe — E abre a veia da vida.
Tsvietaieva
segunda-feira, 18 de maio de 2009
Para O
Dayligh and the Sun
Now I cry for daylight
Daylight and the sun
Now I cry for daylight
Daylight everyone
Daylight in my heart
Daylight in the trees
Daylight kissing everything
She can see
There was no light
Only the white night
First born when the sun
Screamed her eyes open
Daylight in the fields
Daylight mountains
Fire kisses the floor
Of the lakes and makes shadows
Now I cry for daylight
Daylight and the sun
Now I cry for daylight
Daylight everyone
Daylight in my heart
Daylight in the trees
Daylight kissing everything
She can see
Ooh your dream
Here on the water
Warm the sand
The seagulls calling
Kissed by kindness
You gave me this
Your fire becomes a kiss
Now I cry for daylight
Daylight and the sun
Now I cry for daylight
Daylight everyone
Daylight in my heart
Daylight in the trees
Daylight kissing everything
She can see
There was no light
Only the white night
First born when the sun
Screamed her eyes open
Daylight in the fields
Daylight mountains
Fire kisses the floor
Of the lakes and makes shadows
Now I cry for daylight
Daylight and the sun
Now I cry for daylight
Daylight everyone
Daylight in my heart
Daylight in the trees
Daylight kissing everything
She can see
Ooh your dream
Here on the water
Warm the sand
The seagulls calling
Kissed by kindness
You gave me this
Your fire becomes a kiss
I was lying in my bed last night staring
At a ceiling full of stars
When it suddenly hit me
I just have to let you know how I feel
We live together in a photograph of time
I look into your eyes
And the seas open up to me
I tell you I love you
And I always will
And I know you can't tell me
I know you can't tell me
So I'm left to pick up
The hints, the little symbols of your devotion
So I'm left to pick up
The hints, the little symbols of your devotion
And I feel your fists
And I know it's out of love
And I feel the whip
And I know it's out of love
And I feel your burning eyes burning holes
Straight through my heart
It's out of love
It's out of love
I accept and I collect upon my body
The memories of your devotion
I accept and I collect upon by body
The memories of your devotion
And I feel your fists
And I know it's out of love
And I feel the whip
And I know it's out of love
And I feel your burning eyes burning holes
Straight through my heart
It's out of love, ooh hoo
It's out of love
Give me a little bit serious love
Give me a little full love
Be full of love
Fists, fists, fists full of love...
No Coliseu
Os concertos do Antony são sempre surpreendentes. Relembro na Aula Magna uma versão experimental da Dust and Water absolutamente arrebatadora. Aqui - lá no Coliseu - depois da incrível Another World lá nos revela Antony o seu swing. Mas, basta-nos a sua voz...
Para M

Another World
Antony and the Johnsons
I need another place
Will there be peace?
I need another world
This one's nearly gone
Still have to many dreams
Never seen the light
I need another world
A place where I can go
I'm gonna miss the sea
I'm gonna miss the snow
I'm gonna miss the bees
I miss the things that grow
I'm gonna miss the trees
I'm gonna miss the sun
I miss the animals
I'm gonna miss you all
I need another place
Will there be peace?
I need another worldT
his one's nearly gone
I'm gonna miss the birds
Singing all there songs
I'm gonna miss the wind
Been kissing me so long
Another world
Another world
Another world
Another world
segunda-feira, 11 de maio de 2009
Fort-da
Não fosse O e não teria encontrado nunca o Nascer do Sol ou a Rua da Abadia ou o Mictório Luzidio ou o Vermelho e o Negro ou, o meu eternamente preferido, Silêncio dos Livros. Não fosse O e não teria desvelado a blogosfera. Não fosse O e quase tudo velado seria.
Há séculos e nem uma palavra. Tão bom não ter de dizer, só fazer gramática. Antes de O não tinha medos, não alucinava aranhas - não era alucinação... a minha aranha gorda teve bebés... dezenas de mini-aranhiços transparentes a anunciar futura corpulência... naquele recanto da casa passa-se qualquer coisa de indefinido... não sei se são as aranhas que devoram as formigas ou se são as aranhas a ser devoradas, mas resolvi não me intrometer com limpezas e deixar a natureza seguir o seu destino... brevemente o Tim Burton poderia vir filmar cá a casa -, antes de O esquecera-me das noites mal dormidas, antes de O menos só. Agora que O se me desvelou, e se foi, tenho de voltar a escrever. Já não tenho gramática a fazer. Trabalhar, trabalhar, é preciso trabalhar - como tão bem diz o russo. Tenho tanta coisa para fazer e nada de gramática. Até o O de oníria se foi e só ficam os afazeres a ocupar-me as noites - é a segunda vez no dia de hoje que me lembro do poema d'O Funcionário Cansado, mas o Ramos Rosa, mesmo cansado, lá encontrou O. Agora só sonho aos fins-de-semana. É tão fixe a vida mental. Fixe e bué são palavras que (ainda) me recuso a abandonar e amanhã é dia de reunião e eu vou refilar e usar bué muitas vezes e vão corrigir-me e eu vou dizer que bué já faz parte do dicionário há muito tempo e que eu gosto do raio da palavra. E vão rir-se de mim e pensar que é da minha juventude. E eu vou pensar que digo bué, mas que eles não sabem o que significa flanar e eu sei porque O me ensinou.
O, queria escrever-te sobre o Foucault que li ou sobre o Mishima que me apetece ler ou sobre o Twin Peaks que não sei se me espera - desde que me lembrei da música da série não consigo parar de atormentadamente a cantarolar -, mas amanhã é dia de trabalhar. Trabalhar, trabalhar, é preciso trabalhar. Antes de O tinha muito tempo e lembrava-me sempre do que o Coimbra dizia sobre o ócio e a critividade. Agora não tolero o O de ócio porque não tenho o O de ósculo, pelo que me resta o O de me ocupar.
Amanhã, se este jogo do fort-da funcionar, escrevo sobre o Foucault.
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