sexta-feira, 22 de maio de 2009

Riqueza











Há oito dias que o meu jantar se resume a uma taça gorda de cereais de chocolate com leite - excepto no dia em que B jantou cá... lá consegui desencantar duas postas manhosas de salmão. Estas considerações sobre a minha vida nutricional não são mais do que uma premissa para pensar nas consequências das nossas acções. Tudo isto aconteceu porque fui à Feira do Livro com O, esquecendo todas as minhas obrigações alimentares para a semana seguinte - esta em que agora me encontro a sobreviver de Chocapic.

Das muitas páginas que ficaram por comprar lá consegui encontrar, a preço de pechincha, três relíquias, duas fundamentais: os Indícios Terrestres de Tsvietaieva e um livro de desenhos de Balthus, prefaciado por Rainer Maria Rilke. Neste último, Balthus desenha a história de um gato, Mitsou, que encontrou e perdeu com a idade de treze. Depois lá vêm as palavras de Rilke que dão aquela densidade da perda às ilustrações. Eles é que percebem, eles é que percebem... os outros - nós - vamos tentando... atentando, a maior parte das vezes.

Conheci o Balthus tardiamente, quando andava embrenhada na Paula Rego, mas penso que me bastou ver um único quadro. Sim, foi isso o que bastou. Ele carrega o homicídio da infância, naquele limbo onde as frestas se fazem janelas e se acabam os segredos. Acho os quadros do Balthus muito tristes. Inquietantes. E gosto. Gosto muito. E tem gatos, muitos gatos. Há dois anos estava em Colónia, preparando-me para abandonar a cidade, quando encontrei um museu, não tão escondido, com uma avassaladora exposição do Balthus. Não sei se alguma vez recuperarei dessa exposição.
* * *
"Nos meus sentimentos, como nos das crianças, não há graus."
Indícios Terrestres, Tsvietaieva, Relógio D´Água
* * *
À Vida
Não roubarás minha cor
Vermelha, de rio que estua.
Sou recusa: és caçador.
Persegues: eu sou a fuga.

Não dou minha alma cativa!
Colhido em pleno disparo,
Curva o pescoço o cabelo
Árabe — E abre a veia da vida.
Tsvietaieva

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