quinta-feira, 18 de setembro de 2008

A Lesma



Passeava-se na sua nocturna indolência solitária, tendo no seu visco, salgado e lustroso, a esperança única da atracção. Mas a sua condição de hermafrodita, ilusão mortífera de auto-suficiência, tornava estéril qualquer encontro. Devaneio de Andrógino… solidão e debilidade. Invejava os outros semelhantes que, menos frágeis, carregavam laboriosamente a sua concha-lar, na certeza de um refúgio. Interrogava-se sobre o engodo adaptativo que levou a sua casa. Há quanto tempo ficou entregue à vulnerabilidade? Há quanto tempo o seu nome servia os de espírito lânguido?


Esta noite acordei para beber um copo de leite. Na travessia até à cozinha encontrei uma lesma que se passeava nos mosaicos, estrelas geométricas, da minha sala. Impelida pelo incómodo que este real cheio de aranhiços, mosquitos, abelhas e outros seres me impõe, opus-me à lesma e apressei-me a livrar-me da sua presença. Na intenção tinha apenas pôr no norte da sua trajectória o meu quintal, mas esquecida da sua vulnerabilidade – ausência de lar, ausência de escudo –, esmaguei a indolente.



A insónia resolveu ficar comigo, tal como os pensamentos acerca das lesmas humanas que vamos tendendo a esmagar com o esquecimento.



Da lentidão alentejana sempre retirámos bom uso para uma ou outra piadola que vai satisfazendo as nossas necessidades humorísticas. E a lentidão que os faz esquecidos é a força do povo que aqui vou descobrindo, tão próximos e tão distantes que estão da indolente estraçalhada. O tempo sem horas faz a proximidade, a concha da terra faz a distância. Esmagados pela omnipotência citadina, é o cuidar do lar que abate a solidão. Há sempre um vizinho a caiar uma parede, uma casa a ser varrida, uma cortina a ser remendada e há sempre tempo para se ir estando.




- Então, a menina é Professora?


- Não, sou picóloga…


- Ahhh…(silêncio)… então, e vem dar aulas a que ano?




Lá fui percebendo que, para a polis esquecida no tempo, pela impossibilidade de competição com a velocidade omnipotente da capital, ser professor é a via quase única dos estudiosos e dos audazes que deixaram a terra para sonhos mais-além. E assim, apesar de ninguém saber o que faz uma psicóloga, sabem que eu venho desse sítio importante que é a cidade e, como tal, também eu devo ser importante e, por isso, tratam-me pelo que de mais importante conhecem… E, para todos, sou a Professora que veio de Lisboa (os professores do país que se aventurem pela planície que a desvalorização da classe aqui não se faz sentir).


Já vou sendo conhecida aqui na terra e, aqui na terra, já construí uma rotina. E todos os dias de manhã saio de casa e vou encontrando rostos vizinhos…




Então, Professora, está a gostar?

Tem saudades da família?

Dormiu bem, Professora? Olhe que as noites estão a ficar mais frias…

Já consegue falar ao telefone, Professora?

Tem comido bem? Se quiser pode cá jantar c’a gente…

Bom dia, Professora. Hoje está um dia bonito. Não tarda temos aí a época da sementeira…




E, assim, vão cuidando de mim, fazendo da terra um lar. Do lar que a realidade agora me oferece ao lar que carrego dentro de mim, vou sabendo que apesar de sozinha nunca me acho só. E, ainda que bebendo do vagar da lesma, sei-me menos frágil.


No trabalho vou relatando os meus desastres culinários, o que fez com que a Sílvia, minha colega, me trouxesse, cuidadosamente embalado, um jantar especialmente preparado para mim. E, por isso, hoje o meu lar é animado pelo fervilhante aroma das ervilhas com ovos escalfados, mas ainda mais pelo carinho da Sílvia.


Espíritos lânguidos? Ainda não descobri nenhum. E eu, por cá, mais lenta, mas menos adormecida… avivada que ando pelo afecto vizinho.



Para a próxima, a lesma já não me incomodará…



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