Primeiro dia. Acordei 1h30 antes do despertador. Sonhava que estava no Auditório da Biblioteca Municipal de Sousel a ver um filme sobre a Jamaica com os meus colegas. Funny! Arrastei-me pelas divisões da casa, sem norte. Demorei 50 minutos a escolher a roupa que ia vestir... cerca de 10 vezes mais do que o habitual. Saí de casa, decidida a retomar o meu antigamente habitual pequeno-almoço no café da rua, onde a Sónia sabia exactamente como eu gostava do pão e do galão. O café da rua fechou. Reagi bastante mal à mudança. Mudei de café. Não gostei do pão, nem do galão. Insisti. Pedi um café. Não gostei do café. Amanhã tenho de lá voltar...
Tomei o rumo da, outra vez, nova escola. Cheguei. Reconheceram-me. Calorosamente manifestaram satisfação por eu estar de volta. Os professores com quem já me havia cruzado, aproveitaram a minha presença psi para reclamarem sobre as suas vidas. Os psis têm sempre um nadinha de muro de lamentações. Às vezes irrita-me. Ontem não.
Chegou o chefe. Todo ele sorrisos. Disse-me "Tu não vais ter horários qu'é p'ra não teres a tentação de os cumprir...". Deconfiar, logo à partida, de qualquer comentário deste género. Dei por mim, 1h depois, como coordenadora da Educação Especial e dos Serviços de Psicologia do Agrupamento. Caneco! Uma equipa de 6, sendo que ainda ninguém foi colocado. por isso, mantém-se uma equipa de um-para-um. Cinquenta e quatro processos do Especial logo no primeiro dia. E do SPO, ainda nem tive notícia, mas a contar pelo número de turmas, devem ser uns 150. Tudo isto sem sala. Porque devido ao investimento tecnológico socrático (a que a minha mãe gosta de apelidar o plano sóCRETINO!!), a minha sala foi invadida por computadores com ecrãs muito estilosos, mas que estão todos desligados e armazenados, porque ainda não há instalação de não sei o quê para eles funcionarem. Great! Pronto, vim trabalhar para a biblioteca, que num fundo, num fundo, é onde eu gosto de estar.
O regresso impõe também arranjar uma casita. Que isto de ter de ouvir a minha mãe logo de manhã a refilar sobre o pijama que deixei caído na casa de banho já não dá para mim. Procurar casa: missão quase impossível. Depois de vasta pesquisa, eis que surge um lar divino: 97m2 no Marquês de Pombal, mobilado com estilo, 520€. Pareceria irreal a qualquer pessoa que não mantivesse a minha ingenuidade idealista. A proprietária é inglesa, por isso não conhece o mercado de arrendamento português - pensei... e isto porque, como é óbvio, o arrendamento londrino é muito mais em conta... estúpida, caneco (agora gosto desta expressão)!! Lá troquei mails entusiasticamente. A inglesa inexistente até me pediu uma fotografia, só para nos ficarmos a conhecer. Achei simpático e humano... muito ao estilo dos ingleses... estúpida! Seis mails depois e a senhora inglesa pede-me que faça uma transferência de duas rendas para a conta bancária dela e isto só para poder visitar o apartamento que por sua vez me ia ser mostrado por um agente imobiliário que vinha directamente de londres só para eu ver a dita casa... estranho, muito estranho. Bom, tudo isto acabou com mails bastante ofensivos, uma pesquisa na net sobre fraude imobiliária e uma denúncia à PJ. Só assim para começar bem!
Resolvi distribuir funções entre mim e a minha irmã: ela vai ver umas casas, eu vou ver outras e depois só vamos juntas aquelas que gostarmos. Ontem à tarde, enquanto a minha irmã me contava as suas aventuras no bairro do Rego (belo nome!!), onde foi assim ligeiramente incomodada por um tal de "Ruben, o mini-bandido" que para mostrar as suas competências sociais exibia uma naifa enquanto delicadamente dialogava com a minha irmã - sublinhe-se que este encontro terminou na esquadra da polícia do Rego... Bom, enquanto a minha mana me contava estas aventuras, encaminhávamo-nos para o Campo Mártires da Pátria onde íamos visitar um T3 por 600e. Eu já devia ter estranhado, mas não, insisti no idealismo, ou meramente na estupidez humana. Falei com o brazuca da imobiliária que me deu a morada: Rua do Desterro! Caneco, mais um nome apelativo! Enfim, iludidas lá fomos. Estacionámos o carro. Vinha eu alegremente a falar ao telefone com a B e a descer a Rua do Desterro quando vejo um senhor simpático com um ligeiro ar de toxicodependente a acelerar o passo. Acelerámos também. Este senhor simpático começa a correr e a gritar, desligo o telefone à B, ligo os sensores visuais, vejo um café à esquerda com três gajos sentados, agarro no braço da minha mana e desato a correr. Insatalo-me perto dos senhores que ficam siderados. Vocifero: "Está ali um maluco a correr atrás de nós, por isso nós vamos ficar aqui sentadas, está bem?". Eles, nem ai, nem ui. E lá ficámos. Ligo ao brazuca da imobiliária aos berros, afirmando que nem sequer ia ver a casa. Passados 5 minutos aparece o brazuca, tão ansioso que nem acabava as frases, a escorrer suor e pedir mil desculpas porque pensava que nós erámos rapazes. Caneco (mais uma vez)! Ele pediu-nos por tudo para irmos ver a casa, porque não podia justificar a deslocação e bla bla bla. Lá fomos ver a casa, com escolta!! Entrámos, num terceiro andar. Um autêntico bunker, muito ao estilo da Segunda Guerra Mundial, qual fantasia de Anne Frank na Rua do Desterro.
Mortificada por tanta experiência em tão curto espaço de tempo, fui ainda a novo destino: Sete Rios, ao pé do Jardim Zoológico. Já não esperava nada... ou melhor, já só esperava uma casa cuja varanda desse para a tromba do elefante do zoo ou para o charco dos hipopotamos ou qualquer outra cena escatológica do género. Surpresa: entrei num lindo T3, soalheiro e enorme, numa rua calma cheia de árvores e recuperei o fôlego e a esperança...









