segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Memórias do Regresso

Primeiro dia. Acordei 1h30 antes do despertador. Sonhava que estava no Auditório da Biblioteca Municipal de Sousel a ver um filme sobre a Jamaica com os meus colegas. Funny! Arrastei-me pelas divisões da casa, sem norte. Demorei 50 minutos a escolher a roupa que ia vestir... cerca de 10 vezes mais do que o habitual. Saí de casa, decidida a retomar o meu antigamente habitual pequeno-almoço no café da rua, onde a Sónia sabia exactamente como eu gostava do pão e do galão. O café da rua fechou. Reagi bastante mal à mudança. Mudei de café. Não gostei do pão, nem do galão. Insisti. Pedi um café. Não gostei do café. Amanhã tenho de lá voltar...

Tomei o rumo da, outra vez, nova escola. Cheguei. Reconheceram-me. Calorosamente manifestaram satisfação por eu estar de volta. Os professores com quem já me havia cruzado, aproveitaram a minha presença psi para reclamarem sobre as suas vidas. Os psis têm sempre um nadinha de muro de lamentações. Às vezes irrita-me. Ontem não.

Chegou o chefe. Todo ele sorrisos. Disse-me "Tu não vais ter horários qu'é p'ra não teres a tentação de os cumprir...". Deconfiar, logo à partida, de qualquer comentário deste género. Dei por mim, 1h depois, como coordenadora da Educação Especial e dos Serviços de Psicologia do Agrupamento. Caneco! Uma equipa de 6, sendo que ainda ninguém foi colocado. por isso, mantém-se uma equipa de um-para-um. Cinquenta e quatro processos do Especial logo no primeiro dia. E do SPO, ainda nem tive notícia, mas a contar pelo número de turmas, devem ser uns 150. Tudo isto sem sala. Porque devido ao investimento tecnológico socrático (a que a minha mãe gosta de apelidar o plano sóCRETINO!!), a minha sala foi invadida por computadores com ecrãs muito estilosos, mas que estão todos desligados e armazenados, porque ainda não há instalação de não sei o quê para eles funcionarem. Great! Pronto, vim trabalhar para a biblioteca, que num fundo, num fundo, é onde eu gosto de estar.

O regresso impõe também arranjar uma casita. Que isto de ter de ouvir a minha mãe logo de manhã a refilar sobre o pijama que deixei caído na casa de banho já não dá para mim. Procurar casa: missão quase impossível. Depois de vasta pesquisa, eis que surge um lar divino: 97m2 no Marquês de Pombal, mobilado com estilo, 520€. Pareceria irreal a qualquer pessoa que não mantivesse a minha ingenuidade idealista. A proprietária é inglesa, por isso não conhece o mercado de arrendamento português - pensei... e isto porque, como é óbvio, o arrendamento londrino é muito mais em conta... estúpida, caneco (agora gosto desta expressão)!! Lá troquei mails entusiasticamente. A inglesa inexistente até me pediu uma fotografia, só para nos ficarmos a conhecer. Achei simpático e humano... muito ao estilo dos ingleses... estúpida! Seis mails depois e a senhora inglesa pede-me que faça uma transferência de duas rendas para a conta bancária dela e isto só para poder visitar o apartamento que por sua vez me ia ser mostrado por um agente imobiliário que vinha directamente de londres só para eu ver a dita casa... estranho, muito estranho. Bom, tudo isto acabou com mails bastante ofensivos, uma pesquisa na net sobre fraude imobiliária e uma denúncia à PJ. Só assim para começar bem!
Resolvi distribuir funções entre mim e a minha irmã: ela vai ver umas casas, eu vou ver outras e depois só vamos juntas aquelas que gostarmos. Ontem à tarde, enquanto a minha irmã me contava as suas aventuras no bairro do Rego (belo nome!!), onde foi assim ligeiramente incomodada por um tal de "Ruben, o mini-bandido" que para mostrar as suas competências sociais exibia uma naifa enquanto delicadamente dialogava com a minha irmã - sublinhe-se que este encontro terminou na esquadra da polícia do Rego... Bom, enquanto a minha mana me contava estas aventuras, encaminhávamo-nos para o Campo Mártires da Pátria onde íamos visitar um T3 por 600e. Eu já devia ter estranhado, mas não, insisti no idealismo, ou meramente na estupidez humana. Falei com o brazuca da imobiliária que me deu a morada: Rua do Desterro! Caneco, mais um nome apelativo! Enfim, iludidas lá fomos. Estacionámos o carro. Vinha eu alegremente a falar ao telefone com a B e a descer a Rua do Desterro quando vejo um senhor simpático com um ligeiro ar de toxicodependente a acelerar o passo. Acelerámos também. Este senhor simpático começa a correr e a gritar, desligo o telefone à B, ligo os sensores visuais, vejo um café à esquerda com três gajos sentados, agarro no braço da minha mana e desato a correr. Insatalo-me perto dos senhores que ficam siderados. Vocifero: "Está ali um maluco a correr atrás de nós, por isso nós vamos ficar aqui sentadas, está bem?". Eles, nem ai, nem ui. E lá ficámos. Ligo ao brazuca da imobiliária aos berros, afirmando que nem sequer ia ver a casa. Passados 5 minutos aparece o brazuca, tão ansioso que nem acabava as frases, a escorrer suor e pedir mil desculpas porque pensava que nós erámos rapazes. Caneco (mais uma vez)! Ele pediu-nos por tudo para irmos ver a casa, porque não podia justificar a deslocação e bla bla bla. Lá fomos ver a casa, com escolta!! Entrámos, num terceiro andar. Um autêntico bunker, muito ao estilo da Segunda Guerra Mundial, qual fantasia de Anne Frank na Rua do Desterro.
Mortificada por tanta experiência em tão curto espaço de tempo, fui ainda a novo destino: Sete Rios, ao pé do Jardim Zoológico. Já não esperava nada... ou melhor, já só esperava uma casa cuja varanda desse para a tromba do elefante do zoo ou para o charco dos hipopotamos ou qualquer outra cena escatológica do género. Surpresa: entrei num lindo T3, soalheiro e enorme, numa rua calma cheia de árvores e recuperei o fôlego e a esperança...

domingo, 20 de setembro de 2009

Do Abandono







Pronto, se eu pudesse abandonar a Paula Rego e escolher outras mulheres, escolhia as de Tamara de Lempicka.

Paula Rego e o Regresso



Já me ia embora, mas detive-me mais um pouco. Quando deixei Lisboa para S, andava às voltas com a Paula Rego. Agora que deixei S para Lisboa, a Paula Rego faz-me a recepção. E lembrei-me deste dois quadros... Day and Night, de 1954.

Não me livro da Paula Rego, caneco!!

Há um ano e 18 dias...


... Há um ano e 18 dias dava eu início a este blogue. Ontem e hoje, este blogue foi qualquer coisa que eu fiz à distância. Ontem partia de Lisboa, a cidade dos sem terra, desconfiada e eufórica. Hoje volto para Lisboa, dividida e eufórica. Conclusão: a euforia é o que eu faço à mudança... deve ser para não pensar!

... Revisitei os arquivos. Do diário às deambulações sobre decoração, este blogue tornou-se menos frequente e mais verdadeiro à medida que me fui instalando em S. Achei-me sempre só de passagem, e foi de facto uma passagem, mas do que se deixa e do que se traz, volto mais dividida do que fui. O Alentejo partiu-me em duas, de tão partida que eu já andava. Dizia eu que só me poderia imaginar longe, num lugar que me fosse perto... O Alentejo da minha infância, o treino do meu paladar... Talvez mais verdade fosse que andava a aproximar-me do que queria rejeitar. Deixei Lisboa para onde me imaginei poder estar, mas sem alguma vez me permitir poder gostar, herdeira da fantasia citadina de burguesa-mete-nojo. Mas o Alentejo apoderou-se de mim, mesmo quando, irritada, fazia as minhas exigências de abandono. Diz-se que assim acontece com as paixões.

O meu blogue mantém o nome da rua em que vivi em S. Mas, hoje, ao escrever, assaltou-me a ideia de uma certa promiscuidade. Não lhe posso mudar o nome, mas não o posso manter igual. Era urgente separar. Para quem me conhece, não há-de achar nesta artimanha novidade.

Desfiz-me em lágrimas, quase tantas como quando matei o coelho, quando tive de arrumar o meu gabinete. Tirar os livros e os post-its, e as canetas e os apontamentos, desistir do projecto da planta para me animar. Só voltei a ter sinais da existência de lágrimas quando, hoje, desfiz a mala (ou melhor, o carro) para dar retorno às roupas... incrivelmente, o que mais me comoveu foi o cheiro a mofo da minha casa que impregnava tudo o que por de lá para cá, e o inverso, se movia... abri a mala, senti o cheiro, na certeza de uma última vez... como daquela vez que que aterrei em Clacton-on-Sea, Inglaterra, sem os meus pais. Foi a primeira viagem que fiz sem os meus pais. Tinha 15 anos. Aventurei-me com a Rafaela, que já naquela altura prometia as suas investidas europeias. Nunca me esqueci daquele primeiro impacto causado pelo odor. Curiosamente, foi a primeira vez que viajei sem os meus pais. E curiosamente, o primeiro ano que saí de casa, também fica marcado pelo odor. Sou uma gaja sensorial, pelos vistos. Na passada semana dediquei algum esforço mental ao tema da sensorialidade. Falava com F e com A sobre o assunto... Na semana passada ainda nao sabia que ia deixar o Alentejo.

Quando ainda me sentia lá, chegar a Lisboa tinha sempre este carácter sensorial. Descer a rua do cinema Condes, à Sexta-feira, para ir jantar ao indiano em frente ao coliseu e ficar a observar os lisboetas e os visitantes, enquanto me ardiam os lábios do picante. Ao Sábado, caminhar para o divã, sempre naquele estado onírico que antecede a coisa, depois descer a Rua da Estefânia agora descer a Rua da Prata... sempre experiências que me entram pelo corpo. O som das folhas dos plátanos em ira, a luz de Lisboa, o senhor alto de barbas sempre com o saco de pão à mesma hora, os táxis ousados, a voragem, o comércio das ruas, os rapazes do skate, esqueléticos, logo pela manhã na praça da figueira, com as rodas a arranhar a pedra, as línguas diferentes que se vão cruzando aqui e ali. E descer estas ruas, estes minutos de silêncio em que caminhava, tinham qualquer coisa de libertador. Este Sábado, o Sábado em que deixei o Alentejo, não me lembro nem do vento, nem dos rapazes do skate, nem dos estrangeiros, nem da liberdade. Desci a Rua da Prata em perda. As lembranças de S também são muito sensoriais... o alho, os coentros, o ar irrespirável do meu quarto, o sol que arde, o calor que faz rebentar o peito, que se acumula no peito, a pele permanentemente suada, o abraço dos alentejanos, grande, terno, sem etiqueta, a forma como batem à porta, forte, decidido, incontido, o lamber dos dedos quando se foi roubar qualquer pedaço de petisco mergulhado no azeite, o estar à mesa, sem tempo, nem espaço, perder-se naquele estar só por estar, a alegria, a festa, a dimensão do tempo... no Alentejo há sempre tempo, o tempo existe, e não escorrega, o clima diz-se pelos bichos, as lesmas, as caracoletas, os insectos. As pessoas estão. Estão umas com as outras. Há disponibilidade.

Enfim, agora estou em Lisboa... Talvez passe a gostar mais de Lisboa, por me ter apaixonado pelo Alentejo. Talvez só volte a gostar da minha Lisboa, quando a memória se apaziguar. Talvez passe a saber mais de mim, se me permitir gostar daqui e dali. Sei que não podia ficar. Sei que não queria ficar. Mas quero voltar. Regressar de vez em quando, para me dividir ou me unificar.

* * *

Ao mesmo tempo que escrevo, vejo a entrevista da Paula Moura Pinheiro a Paula Rego. Ninguém como ela para contar o amor e o ódio e o visceral. Paula Rego fala sobre o rural, que engraçado! Diz que o rural português mortificava as mulheres, que quanto menos uma mulher fazia, mas valorizada era. Acho que fui resolver esta zanga para S, no que o Alentejo antigo e rural mortificou as mulheres da minha família. Não a mim!! Lá, ganhei eu uma nova dimensão!

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

A propósito dos Beatles








My favourites...

...

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Em Estreia


A Menina Júlia, de Strindeberg, pelos Primeiros Sintomas. A partir de 7 de Setembro de 2009 no Negócio... Rua do Século, nº9, Lisboa.