… Tic-Tac, Tic- Tac…
“Serei as cores das quentes vinhas da terra ou o vinho que serve o deleite dos embriagados? Serei o despojar deste deserto ou a avidez que ruidosa grita uma verdade-solidão? Serei a esperança límpida da água que rega e que se demora no florescer ou a desistente quietude que quer, mas não se pode deixar morrer? Serei o sorriso apaixonado, encantamento pueril, ou o sorriso engodo, sobrevivência-fuzil? Serei o verde vibrante ou a tristeza saudosa do olhar?”
… Tic-Tac, Tic-Tac…
“Sou a dúvida entre o querer erguer-me e o querer perder-me, entre o meu olhar e o reflexo do teu, sou a vontade do absoluto, o aborto da incerteza. Não sei em que rua me devo descer… nessa das casas imaculadas, das benévolas mártires maternais, com nomes de escritores importantes ou de heróis viris, ou nessa rua sem nome, nesse lote B-2ºFrente, nesse anonimato… sem nome, mais animal…”
Findo o diálogo sem boca, ela desceu. O destino era a sua espiral crepuscular. O do Taxista também. Continuou ao leme. Novamente só, demorou-se na observação dos pêlos do seu nariz, pouco habituado que estava a demorar-se nos seus olhos.
* * *
Acendeu um cigarro. Gostava de ver reflectido no espelho o fumo que lhe saía da boca e se dividia na passagem do seu nariz. Gostava também da sensação de névoa que lhe deixava no olhar. A cegueira arde, pensava às vezes… ele, que tudo via através do seu espelho. Encostou na espiral, a pedido do Velho. O Velho entrou, a muito custo, tal não era a quase paralisia de uma das suas pernas. O Taxista não o olhou, continuando a degustar o seu cigarro e as assombrosas formas desenhadas pelo fumo. O Velho olhou para o espelho. Nada encontrou. Grunhiu, então, como fazemos para negar a nossa falta de existência, “Leve-me até à Rua 23!”. O Taxista arrancou sem passar pelo espelho retrovisor… Era o Velho… Fazia-lhe lembrar a sua ruga no canto da boca. Assim prosseguiu a viagem, entregue à cegueira que já não era a da névoa do seu cigarro. Despejou o Velho e com ele o fantasma da sua mortalidade.
Continuou na espiral crepuscular e acendeu mais um cigarro.
* * *
Sai o Palhaço inversivo, levando consigo um reflexo do espelho. Crente na ponte de esperanto – desce nessa rua dos amantes (des)iguais – são iguais o aquém e o além se te não conheceres em ninguém... E, da profundidade adquirida, deixa esquecido, como parte de si, o revólver florejante. Caminha para casa – não ter casa é de onde foi – e encontra o leito aquecido pelo aroma verde que reconhece.
No Táxi, entra o Homem de Negócios. Na mão esquerda carrega um ramo de flores exuberante, na mão direita a pasta dos homens importantes. Nos olhos irríguos, um tormento. Fato obssessivamente apertado, gravata impecavelmente vertical. Tudo naquele cinzento dos homens que se querem esconder. Só o ramo indiciava um desígnio exibicionista. Deu-se o encontro re(in)trovisor...
“Tenho a pasta vazia. Tenho a pasta vazia. Tenho a pasta vazia. Tenho a pasta vazia. Tenho a pasta vazia. Tenho a pasta vazia. Tenho a pasta vazia e a mão cheia de um ramo mendaz.”
… Tic-Tac, Tic- Tac…
“Tenho a pasta vazia. Tenho a pasta vazia... a pasta vazia... a pasta vazia... vazia...”
… Tic-Tac, Tic- Tac…
O Taxista reconheceu um menear. Do desencontro do espelho, ao encontro do cilindro homicida – passeio irreflectido –, o Homem de Negócios fixado no revólver. O Taxista dividido entre a espiral crepuscular e o Homem de Negócios.
O Homem de Negócios larga a pasta. Agarra a promessa honrosa e dispara. Saltam as duas flores esquecidas pelo palhaço, homocromas ao seu perscrutável bouquet – um assassínio e uma ressurreição. No conflito inculpável do seu jardim, pede para ser descido na casa da luz vermelha e das cortinas cerradas. Desce e, com a porta ainda aberta, grita para o Taxista:
“SOU O HOLOGRAMA DE AGAMÉMNON! COM A MÃO ESQUERDA A MATO, COM A MÃO DIREITA ME IMPEÇO. NA MINHA INDELÉVEL PASTA ME CARREGO. FECHADA, TROFÉU DA MINHA INDECOROSA OMNIPOTÊNCIA. ABERTA, MAUSOLÉU DO IRRÍGUO OLHAR, VAZIO DO REINADO PARADOXAL. SOU O HOLOGRAMA DE AGAMÉMNON! REI DOS REIS, DOS CONSÓRCIOS CRIMINAIS...”
Deixou a alma largada e fechou a porta do Táxi. O Taxista parou na espiral crepuscular. Saiu do Táxi. Acendeu um cigarro, como sempre fazia. Queria livrar-se das almas alheias esquecidas. Ao abrir a porta das almas passageiras para agarrar a pasta vazia, encontrou no troço alcatroado duas fotografias caídas, atrás dos sorrisos, os nomes de Ifigénia e Electra. Foi esta a alma que precisou de largar – pensou.
* * *
Ainda de cigarro pendente nos lábios entreabertos, mais cinza que cigarro, o Taxista voltou a entrar e continuou no mapa das suas rugas. A cinza caía-lhe sobre as calças e sobre as mãos. Era quente e ele gostava, apesar da poeirenta confusão que se espalhava. Lembrou-se do Eraserhead.
Um Polícia acenou-lhe. Abrandou e, entre a confusão da cinza, procurava na confusão os papéis que esperava na demanda da farda que se lhe oferecia. Que procuras Homem do Leme? – peguntou o Polícia. Carta de Condução, Livrete, Seguro, o Número que me identifica... – o olhar amedrontado. Só quero que me leves... – respondeu langoroso. Deleita-te no assento passageiro... – retribuiu, benemerente, o Taxista.
O Polícia entrou e aconchegou-se a um canto, como sempre fazem os passageiros que fogem do centro onde a re(in)trovisão é mais recta – excepto o Palhaço, o audaz. Aconchegou-se e acendeu um cigarro. No Taxista ateou-se a sensorialidade odorante. Voltou ao espelho onde encontrou a orla nebulosa do cigarro autoritário. Este Táxi é de não fumadores! – respingou o Taxista. Mas se bem vejo o teu cigarro vai ardendo... – disse o Polícia apagando o cigarro, enquanto o Taxista continuava com a sua quase terminada impertinência.
… Tic-Tac, Tic- Tac…
“Despido da minha farda, quem é este que vive a persecutória exigência da regra? Tão nu, tão evidente, mais pobre do que tu... Canalhas como tu. Na minha farda, só canalhas. Restos imortais desses cuja morte quero inflingir. Odeio-os! Mafiosos, ladrões, putas e rufiões, preguiçosos, pobres, mendigos, mentirosos, drogados e pernetas, aberrações da rua, travecas, meninos putrefactos, cãezinhos abandonados, arrumadores de carros, bêbados, velhinhas cheias de sacos. Enjaulá-los todos! Com a minha farda passar multas, pôr algemas, espreitar as putas sem ter problemas e a seguir... ENJAULÁ-LOS! Leis e Números! Para eles, apenas Leis e Números. Nem pão, nem água, nem ESPELHOS!”
… Tic-Tac, Tic- Tac…
“Aqui, sem farda, agrilhoado. Prisioneiro do meu ódio impedido de acção. Prisioneiro à tua regra de proprietário arrogante. O teu cigarro ardente, o meu apagado. Sempre preso ao meu ódio-regra. Eu, o prisioneiro, o sem casa, sem abrigo, o ignorante do calor das coxas, o ladrão dos meus sonhos, o homem nu, em decomposição... Amanhã, ACORDAR E ENJAULÁ-LOS A TODOS!”
O Taxista parou em frente à Esquadra. O Polícia desceu... E, sem saber porquê, chorou. O Taxista também.
* * *
TÁXI! Entram a Mãe e a Filha. Pareciam não ter idade. Indistintas. Cabelos negros, lisos, linearmente cortados pelos ombros, franja escorrida até às sobrancelhas. O olhos ainda lacrimejantes do Taxista iluminaram-se com a juventude da Filha adolescente. Olhou para ela pelo retrovisor. Ela correspondeu, sorriu. A Mãe, observante, abotoou-lhe o casaco, alisou-lhe a franja até esconder o olhar e deu-lhe um pequeno toque na nuca que a fez curvar o rosto no sentido da gravidade. Enfrentou, então, o Taxista.
… Tic-Tac, Tic- Tac…
“Taxista dos Bolorentos Desejos que Leme guias no olhar que diriges à minha menina? Porque lhe roubas a meninice? Hei-de fechá-la. Fechá-la dentro da minha perpétua. Eu, para sempre menina, sem desejos.”
… Tic-Tac, Tic- Tac…
“Taxista dos Desejos, porque não te iluminas no meu olhar?”
Desceram as duas, de mão dada. A Filha arriscou olhar para trás. Frente-a-frente com o olhar do Taxista, encolheu os ombros e sorriu... À custa de uma bofetada.
* * *
Na espiral crepuscular já ia demorada a escuridão. Surpreso, o Taxista encontrou o Menino. Não terá mais de 8 anos... Tão só... – pensou. Abrandou. Queres que te leve? O Taxista nunca intervinha, só aguardava as chamadas... O Menino entrou decidido e perguntou - Como te chamas?
Que dizes, rapaz? O Taxista, difuso, procurou o espelho retrovisor, procurou o olhar do Menino, mas no dele só encontrou o seu. Perdeu-se. Fixou-se nos seus próprios olhos.
“De que cor são? De que cor são?”
O Menino interrompeu-o - Como te chamas?
“Que nome é o meu? Que nome é o meu? Travessuras da memória, que nome é o meu? Que me perguntas, rapaz? Que queres de mim?”
O Taxista já só podia olhar o seu próprio reflexo. Conhecia as rugas, os pêlos do nariz, o farto bigode com restos de cinza, conhecia a testa curtida e já calva onde ainda deveria estar preenchida, conhecia as espessas sobrancelhas, os cabelos brancos que lhe salpicavam as patilhas. Conhecia o escuro sinal no centro do rosto, a barba rasteira de que ontem se esquecera. Só não conhecia o seu olhar, habituado que andava em se perder no olhar dos outros. Conhecia a densidade humana e, agora, era um menino, o pequeno Menino, o seu menino de olhos sem nome, que o forçava a ver. Perdido nos seus olhos sem nome e sem cor, imiscuiu-se na espiral crepuscular. O Tic-Tac vagaroso que agora ouvia era o do seu coração titubeante, o calor que sentia já não era o da cinza do cigarro ardente, mas o sangue que se derramava escondendo-lhe a precipitada lividez do rosto.
Azul... Intermitência... Azul... Intermitência... Azul... Intermitência... Azul... Intermitência
Chegada a panóplia de odores esterilizados, o Taxista reconheceu algures o rosto da Sua Mulher. Meu túmido candor de astro, diz-me, que nome é o meu? Que nome é o meu? A Sua Mulher, no apático pavor da perda, contou-lhe a história de Tirésias.
Tic-Tac Tic-Tac Tic-Tac Tic-Tac Tic-Tac Tic-Tac Tic-Tac Tic-Tac! A bomba retomou.
Verdes! São verdes os olhos do cego profeta. Eduardo, dos excindidos passageiros.
E o Menino? – perguntou.
Sobreviveu?
...Qual menino?...
* * *
Leve-me Taxista do Ocaso
à Mulher deslavada
da camisa branca,
à sua túmida, pelo sal,
candura astral...
ShugO