
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009
sexta-feira, 23 de janeiro de 2009
Indecisão(?)
Não consigo decidir se gosto do além-texas ou não. Também não consigo decidir se o problema é exactamente este.
Em Lisboa não há silêncio... não há silêncio... tenho sempre os saltos altos da vizinha de cima ou o puto de baixo que teima em chorar ou os de cima, novamente, que descobriram os berlindes ou o cão do vizinho do lado, cego de tão velho, e que uiva apavorado, ou os adolescentes que pernoitam nas escadas do prédio, entre cervejas e cigarros... quando nos cruzamos no elevador, os indigentes, contorcemo-nos na tensão do silêncio e costumamos arranhar um "Hoje está um dia daqueles..." - comentário tão inditoso, que tanto serve o quente, como o frio - o assim-assim é comiserador!
Aqui no além-texas a ausência de ruído humano é tão gigântica que conheço o trajecto das gotas da chuva no meu quintal... Primeiro, gordas e iradas, colidem com as telhas onde se amontoam e empurram, deslizando em ondas. Derramam-se em cortina pela janela da cozinha e encontram, já minguadas, as faces metálicas da bilha do gás. Uma a uma, já pequenas, desafiam os ritmos, numa sedução tilintante. Tenho dificuldades em deixar-me adormecer ao som da chuva, mas quando adormecida, sou frequentemente acordada pelo meu próprio sibilar... tal o silêncio. Aqui, conheci uma consciência do meu ruído que me era mais ou menos estranha... aquele mais ou menos estranho, que é mais um inquietante estranho, pois que se faz aliado da minha fantasia de ser bastante ruidosa... Ontem, achava eu que falava tão alto para um grupo, que fiquei sem voz. Completamente sem voz durante quase um eterno minuto. E tantas vezes sem voz: não sei dizer, não quero dizer, não tenho nada para dizer... E uma língua emerge em toda a parte e entre as árvores canta, canta... não sei quanta voz há em minha voz - li isto na adolescência, não sei bem onde, mas lembrei-me... realidade inteira?
Assim é a noite no além. O dia, por sua vez, é povoado de vozes. No além as vozes são normalmente arreliadas: são as mães em fúria. A confusão é tão grande que às vezes imagino que no além só há mães, no seu grande baloiço, entre o cuidar e o arremelgar. Mas, aqui no além, os pais parecem um bocado bananas, principalmente na boca das mães.
Esta semana peregrinei por várias aldeias aqui do concelho, onde ando a fazer uns encontros de grupo. Entram, eles e elas, muitas vezes casais. Eles, roxos do vinho, para a esquerda; elas, ventres descaídos, para a direita. No lugar que une os uns e os outros, elas ordenam que eu me sente... mas não sou ponte, sou abismo. Não há nada de romantismo. Eles são marionetas contratadas para fazer filhos às mulheres. E elas ficam contentes. Elas e os seus filhos. Eles e o seu vinho. Elas falam muito, sempre opiniosas. Se eles se arriscam, mandam-nos calar num misto de fúria e embaraço "A Dra. não ligue... esse aí p'ra pensar é um caso sério... a única coisa que aprendi com ele foi a esfolar lebres e até isso já faço melhor que ele!". Senti-me empalidecer e lembrei-me da Catarina que pôs aparelho esta semana e a quem a médica disse que era preciso ter cuidado porque ainda partia o osso e depois era uma chatice porque ela começava a sangrar do nariz, dos ouvidos e dos olhos. A lebre esfolada e os olhos sangrentos da Catarina... o Dr. Jekil e o Mr. Hide... uma semana fantástica.
Não consigo esconder a minha Paula Rego. Eu bem queria deixá-la para trás, mas não consigo. É uma espécie de perseguição que faço a mim mesma e devo dizer que me assusta a circularidade da coisa. Estou para lá, no meio do grupo, a querer fazer-me ouvir e a calar os ruidosos quadros da Paula Rego que me arremessam o pensamento e depois... depois, fico sem voz! Anda uma gaja a enjoar ensopados de borrego, p'ra depois vir migar açordas. E assim remato, com as minhas metáforas culinárias, muito ao estilo da Paula Rego.
quinta-feira, 22 de janeiro de 2009
Do insight
Acabei de perceber agorinha mesmo porque é que deixou de me apetecer escrever neste blogue - neste ou em qualquer outro!
... E ontem à noite dormi em casa de uma amiga e vi as notícias em estrangeiro... VIVA a TV CABO e a globalização, que a vidinha no além-texas é muito boa, mas gera alguma irritação!
... E ontem à noite dormi em casa de uma amiga e vi as notícias em estrangeiro... VIVA a TV CABO e a globalização, que a vidinha no além-texas é muito boa, mas gera alguma irritação!
sexta-feira, 9 de janeiro de 2009
Ontem à noite...
... vi o Bando à Parte, do Godard. Que personagens tão trapalhonas! Gostava de ter mais coisas para dizer sobre o filme, mas realmente só me ocorre que aquele era um bando de trapalhões... quase patéticos...
Muito bonito o excerto que aqui fica - pelo menos, assim me parece. Lembro-me que quando andava de transportes públicos me dedicava muitas vezes à mesma aventura...
domingo, 4 de janeiro de 2009
O Messias, de Handel
Ontem descobri O Messias, de Handel, interpretado pelo Ensemble de Santa Maria de Belém e pelo Coro de Santa Maria de Belém. Já não entrava nos Jerónimos há algum tempo... É lindo entrar ali e ser assolado por aqueles painéis enormes que parecem engolir-nos... Sorte do meu lado, reservava-se o meu lugar mesmo debaixo da nave do Mosteiro. Acho sempre que as naves têm qualquer coisa de uterino. Não sei se é o som, talvez não seja o som, mas, ainda assim, acho mesmo que é o som. Demorei-me longas horas naquele feitiço, envolvida pelos músicos e pelo menear dos seus corpos e dos seus instrumentos, em harmonia total com o som. As cordas e os sopros e o incrível cravo.
Não percebo nada de música, a não ser o que a música em mim comove. Curiosamente, não há mais de três dias, tinha visto o Azul, narração do luto de uma compositora silenciada. Quando os seus olhos se debruçavam sobre as partituras, o seu pensamento fazia-se som. Espantoso. O pensamento dos músicos deve ser som. Impressiona-me esta possibilidade de olhar para uns símbolos e criar som na mente. Acho incrível... incrível... A música - não só a música... - tem este poder sensorial de nos fazer compreender, mesmo sem conhecer, mas, felizmente, ouvi o Messias acompanhada por músicos e fiquei... uau...
* * *
Músicos: Oh, esta Ária é fabulosa... ouve, ouve... ouve só como o Recitativo a introduz...
Eu: Uau... O que será um Recitativo? Não sei, mas soa-me a poesia...
Músicos: Sente só o poder do Contra-tenor...
Eu: Uau...
Músicos: Agora, agora... vão entrar os fagotes...
Eu: Uau... Uau... Uau...
* * *
Deixo-vos, aqui, o meu coro preferido deste oratório:
He trusted in God that He would deliver Him:
let Him deliver Him, if He delight in Him.
terça-feira, 30 de dezembro de 2008
Conto de Natal que Eu queria ter Contado, mas que NÃO Contei ou O Pudor é F.....! (... e o pudor insiste até neste título...)
Aconteceu há muito, muito tempo, numa aldeia com um nome de difícil pronúncia, onde os demais se pareciam esgotar no caminho de laranjeiras em promessa de flor, que se atravessava entre o Norte e o Sul. Pareciam. Isabel subia e descia, de Norte para Sul, de Sul para Norte, desde à Aldeia de Cima até ao número 5, e de volta. Num resmungar de língua enrolada subia e descia, descia e subia, na oração do seu luto. Perto do número 5 soltava-se o guincho "Eles entram-me pela tomada da luz". Dentro da Casa, Teresa reconhecia-a. Abria a porta. Das traseiras. Isabel entrava sempre pelas traseiras. Teresa acolhia Isabel. Sentava-a na cadeira do alpendre enquanto cosia. Isabel hipnotizada pela agulha desenfreada, esquecia a oração. Teresa cosia, cosia, com a força herculiana das mulheres que não se deitam, para no dia seguinte servirem uma açorda quente aos filhos. E cosia, cosia. Não gostava da invenção da cintura descaída - Afinal, onde se acomodavam os gordos rabos das mães? E os ventres descobertos, dessacralizados? Não gostava, mas cosia. Cosia, cosia. Não usava dedal. Quando a noite descia sobre o limoeiro, Teresa levantava-se. Subia os dois degraus de acesso aos quartos e, daí, mais três até à cozinha. Com a faca branca, curvada pelo tempo, cortava duas grossas fatias daquele pão saloio e sem sal. Cobria-o com um queijo de cabra fresco que lhe tinham trazido da cidade. Descia as escadas apressadamente. A máquina de costura aguardava-a em êxtase. Entregava uma fatia à irmã. Os olhos verdes, escondidos pelas rugas, desviavam-se da agulha já parada. Só agora saía do son(h)o. Dentro do corvo, o corpo esquálido não se permitia o sabor. Teresa guincha "Então, não comes?". Isabel sai, pelas traseiras, de Sul para Norte, temerosa, na sua oração, dos invasores.
***
Maria costumava sentar-se aos pés da mãe, Teresa, enquanto ela costurava. Pasmava-se com as idas e vindas de Isabel silenciosa. E cosia, cosia. Tinha um pequeno dedal que a mãe lhe tinha oferecido no Natal anterior, com o qual arriscava umas linhas. Nesse ano tinham-lhe dado uns carrinhos de linhas com muitas cores. Maria gostava de ver a mãe a costurar, mas perdia-se com frequência no calendário do Sr. Facas, o sapateiro. Gostava das letras e dos números e das formas que eles tentavam e, ali, sentada no calor das pernas de Teresa, entre riscos de giz e alinhavos começou a ler. Nesse ano, quando ainda só somava quatro, escreveu a sua primeira carta ao Pai Natal "Não quero mais costura, quero um cão-irmão!".
* * *
Já a Aldeia dormia, chegava Vitorino. O Pai. Condutor da Carris, ponte única entre a Aldeia esquecida e a Cidade. Só duas vezes por dia. Só duas vezes por dia. Sentava-se silente, esperando a açorda que Teresa costurara todo o dia e toda a noite. Deitava-se. Durante seis anos Maria escreveu sempre a mesma carta, que deixava largada perto da lareira da casa de jantar. Teresa encontrou-a sempre e lia-a baixinho a Vitorino enquanto este dormia. Certa vez, ao jantar, uma semana antes do Natal, Vitorino senta-se para a açorda e diz "Teresa, ando cá com uma ideia que não sei onde a fui desencantar. Um amigo lá do serviço teve uma ninhada de cães. Estava a pensar dar um à Maria...". Teresa sorriu.
***
Na noite da consoada vinha Maria da Aldeia de Cima, da casa da Dona Joaninha onde fazia os deveres, para o número 5. Rua acima, rua acima. Sabia que Teresa lhe tinha feito um vestido especial. Entrou em Casa e correu para o alpendre da costura. Rasgou o papel do embrulho que era o mesmo do ano anterior. Vestiu o vestido. Sentou-se à mesa com o pai e esperou pela açorda. No Natal havia sempre ovo e bolo rei e uns bolinhos de azeite em forma de S que ela gostava particularmente. Jantaram os três e esperaram pela meia noite. À hora certa, Teresa encaminha Maria para o quintal. Maria encontrou o cão das cartas. Chamou-lhe Xarique. Teresa devolveu-lhe as cartas que escrevera ao longo dos anos e Maria deitou-as na lareira - realizado o desejo. Fez-se um grande lume e, aquecida a casa, dormiram os quatro. O Xarique na cama de Maria.
***
No dia seguinte, Xarique foi o primeiro a acordar, empenhando-se num passeio pela Aldeia. Vitorino não tardou. Vestiu a farda azul escura e fez-se ao seu caminho diário. Na cozinha, Teresa preparava umas fatias douradas e Maria espreitava à janela, procurando Xarique. Ouvem-se os motores do autocarro de Vitorino. Surge Xarique pelas ruas, excitado. Na sua marcha pesada, a roda perpassa-o. Um esguicho de sague e de vísceras. Maria grita. Teresa corre para a Rua. Com as mãos cheias de gordura e açúcar agarra Xarique. Deita-o no alpendre da costura. Olha-o, esventrado. Queima uma agulha e põe-lhe uma linha. Empurra as tripas de Xarique para o espaço que lhes era devido e cose-o. Xarique dilacerado, nem ousa o movimento. Maria observa tudo do degrau que dá para o quarto. Teresa embala Xarique e deita-o junto à lareira. Maria chora e esconde-se no sofá. O lume apagou-se. Horas mais tarde Xarique mexe a cabeça, arrasta-se um pouco e lambe as cinzas das cartas de Maria. Olha para a menina e promete viver. No ano que se seguiu, Teresa engravidou.
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